


| A "Trifacetada Cosmica" (Estrutura ▓╬▲≡∆≈╙▓ ) |
| Quando se desespiritualizou, viu-se nú, estirado sobre uma mesa de mármore gelado. O fulminante ataque que o acometera durante a madrugada, havia transportado a sua consciência e todos os seus sentidos, numa questão de segundos, para a esoterica dimensão onde dizem habitar as almas constritas. Deu-se conta de que a sala, de paredes aladrilhadas de branco e fartamente iluminada, exalava um odor nauseabundo de cloro, éter e outros desinfetantes combinados. Em virtude do ambiente refrigerado, a temperatura deveria ser abaixo da media. Mas ele sentia apenas um halo leitoso envolvendo a sua silhueta e enxergava tudo o que se encontrava no local através de uma névoa gelatinosa. O silêncio era quase total, não havia movimento algum, com exceção de alguns exaustores de ar e condicionadores que reverberavam um surdo e continuo zumbido pelo setor do necroterio. A sensação era a de que pairava suspenso no ar, não obstante enxergar claramente o seu corpo estirado na mesa ao lado de um dos armários de aço. Era um astronauta invisível encapsulado pelo próprio espírito, flutuando sobre o seu corpo inerte, como que querendo nele reentrar pelos poros ainda abertos. Entretanto, a levitação era magnetizada por uma força colossal, que o mantinha afastado do piso. Logo acostumou-se àquele estado etéreo e sentiu uma extraordinária tranquilidade e ligeireza de movimentos. Tentou produzir algum som ou ouvir o que dizia, mas sem resultado. Ainda não convencido da impossibilidade de retornar ao seu corpo levemente azulado e inerte, continuou pairando ali por um período indefinido, pois o tempo, na dimensão em que se encontrava, parecia nada significar, talvez fôsse alguns segundos ou minutos, o mais certo seria defini-lo como sendo uma coordenada espacial virtualmente inconsistente. Porém, quando se deslocou na direção das janelas, estancou sobre uma das mesas na qual jazia um outro corpo, coberto por um lençol imaculadamente limpo. Segundos se passaram até que começassem a pairar no ar o que pareciam ser minúsculos flocos cintilantes que, desprendendo-se daquele corpo, subiam em sua direção. Gradativamente se foi materializando uma nova névoa, de cor rosa-claro, contrastando ao leve azul daquela que o envolvia, e, em segundos, estabilizou-se ao seu lado. Deduziu que aquele espírito deveria ser de uma mulher, pois, se fosse de uma criança, certamente seria alado, a exemplo dos anjos. Conjeturando que o melhor seria entregar-se àquela nova realidade, procurou de alguma forma comunicar-se com a névoa companheira. Qual não foi o seu enorme espanto quando lhe chegou uma mensagem telepática daquela que julgava ser um espírito feminino. - "Olá, alma desconhecida. Precisamos sair daqui o mais rápido possível para nos reunirmos aos nossos agora semelhantes, que estão vagando espalhados neste momento pelo espaço infinito". - "Olá. Suas ondas são muito bonitas e as compreendo perfeitamente. Desculpe se a minha transmissão está um pouco rouca; e' que ainda me sinto muito emocionado em ter abandonado o meu fiel e velho corpo e estar agora habitando esta fascinante dimensão transcendental." - "Também sinto o mesmo. Quando aqui cheguei, fui induzida a reunir-me a você para que começássemos juntos a nos deslocar no sentido celeste noroeste superior, espaço MMI, Estrutura 6448912, Área B34567, 26o. piso, onde seremos informados de nossas respectivas funções". - "Esta nossa nova linguagem é de uma rapidez e clareza tais que nada tem a ver com a maneira primitiva que usávamos quando ocupavamos os nossos corpos." - "Agora estamos numa esfera esotérica diametralmente oposta à da Terra". - "É exatamente o que sinto. Já se vê ao longe uma gigantesca pirâmide esmeralda, com uma infinidade de andares e plataformas exteriores. Olhe as naves e luzes cintilantes estão se movimentando em torno do edifício! ". -"Fantástico! Estou sentindo uma leve força de atração nos levando para lá. Olhe, já estamos sendo conduzidos para o piso 26". E, de fato, em poucos segundos as duas névoas adentravam um imenso pavilhão, repleto de cubos alaranjados, cada qual com uma marca especifica de identificação. Nos segundos seguintes já tinham também elas se transformado em cubos semelhantes. O que se seguiu nem de longe poderia se comparar aos fenomenos terrestres ou em sua órbita no domínio solar. Para o mais experiente cientista ou astronauta da Terra, a tecnologia presente naquela pirâmide esmeralda fa-lo-ia sentir-se como uma criança de tenra idade às voltas com seus chocalhos e bonequinhos. As paredes do pavilhão eram feitas de um material translúcido do qual se projetavam imagens hologênicas em continuo movimento circular que se inter-ativavam entre si. Deste processo iam sendo liberados milhares de cubos alaranjados, que se agrupavam de acordo com um determinado código. Seguiu-se então uma mensagem telepatica: " Agentes terrestres devidamente condensados em estado gasozo. Cada grupo está agora preparado para assumir a sua nova missão. Todos estiveram na Terra a título experimental. Muitos de vocês retornarão para lá sob a forma humana, feminina ou masculina. Outros assumirão a forma de animais, insetos, peixes, batráquios, aves etc. conforme um processo de seleção estritamente automático, o que fará com que milhões de vocês, por outro lado, sejam transportados para corpos celestes em outras galáxias. A exemplo desta estação, "A Trifacetada" ou Estrutura ▓╬▲≡∆≈╙▓ , que processa os agentes egressos da Terra, há no espaço múltiplas estações, cada qual incumbida do processamento de agentes oriundos de outros pontos cósmicos. Dentro de milisegundos cada qual terá sido transplantado e pronto a prosseguir a apocalíptica missão que estuda o comportamento e sobrevivência autônoma dos especimes os mais variados, nas infinitas camadas cósmicas que estão continuamente se proliferando. Até o proximo encontro e feliz preenchimento de vossa missão na Terra." |















| CONTO DE FICÇÃO POR SALO YAKIR - FEVEREIRO, 2014 |
