
Como tinha jeitão, fazia palhaçadas. Na praçinha do bairro já era conhecido. Com o rosto maquiado e cabeleira postiça ruiva pixaim, subia na estátua ali plantada; enfiava-se entre os braços do herói regional e trombeteava aos quatro ventos com um instrumento de bambu improvisado. Como em cidade pequena curiosidade era rastilho de pólvora, em pouco tempo uns vinte ou trinta bandalheiros já haviam se acercado da praçinha e, de leve, tomado lugar no gramado em volta do coreto. Mandava uma piadinha aqui, uns contorcionismos careteiros ali, gozação de políticos locais e uma pregação revolucionaria sôbre a situação economica que, no final, incitava o público a vaias e ruidosa agitação. Apareciam então, sorrateiros, o pipoqueiro, o sorveteiro, o marreteiro, as raparigas assanhadas e os moços desajeitados, transformando o lugar em um comício movimentado e incontrolável. O palhaço, após os apupos provocados pelos seus trejeitos, ia misturar-se à gentaiada, equilibrando-se em umas altas pernas de pau, trombeteando sem parar. Passado algum tempo, ninguém mais se importava com o espantalho, pois assim parecia aquela figura cirquense que, para torná-lo ainda mais ridiculo, vestia nos ombros placas coloridas de propaganda e uma surrada sacola para recolhimento de donativos. Em pouco tempo a praçinha fervia de gente, todo mundo em animado vozerio, sujando, rindo, bebendo, paquerando; menos o palhaço, pobre espectro, rosto lívido manchado pelas lágrimas, algemado, prêso pela policia por vagabundagem e incitação à desordem pública. ---------------------------------------- Sempre que podia, Mario vinha à praçinha sòzinho, pois, além de introvertido e inseguro, não tinha namorada ou muitos amigos. Ademais, trabalhava como padeiro e quase não saia às noites, preferindo recolher-se cedo para acordar às 4 da manhã. Naquela noite ele chegou a tempo de presenciar a detenção do palhaço, que conhecia pessoalmente. Ficou intrigado, pois era testemunha de que o Pedro, o bufo em horas vagas, era honesto e boa pessoa. Resolveu que iria ajudá-lo uma vez mais, como fizera em ocasiões passadas. Apos apresentar-se na delegacia do bairro, testemunhar a favor de Pedro e pagar a fiança de liberdade condicional, sairam os dois amigos em direção ao centro da cidade. Mario conhecia bem a tragédia na vida do amigo. Alguns anos antes, uma das filhas de Pedro havia sido hospitalizada por um longo periodo devido à grave enfermidade e este, por ter sido obrigado a largar o emprêgo, tornara-se um dos palhaços hospitalares para poder sobreviver. Nesta qualidade, recebera grande desconto no tratamento da filha, que não desconfiava que o seu palhaço preferido era o próprio pai. Quiz o destino que ao receber alta do hospital, a filha de Pedro ficara confinada a uma cadeira de rodas e pedia a presênça de um determinado palhaço, entre os vários que conhecera enquanto internada. Quer por pressentimento ou coincidência, o palhaço escolhido fôra o seu proprio pai. E assim, passou Pedro a entreter a filha, vezes como pai normalmente vestido, e outras como figura fantasiada. Para viver, o palhaço recebia propinas na praçinha e outros lugares que frequentava. A sua vida era complicada, não podia trabalhar normalmente e na praçinha era seguidamente distratado e muitas vezes interpelado pela policia. Porém, todas as noites ele ali estava à beira da cama da filha, que para adormecer esperava pelo seu palhaço preferido e, não raro, perguntava a alguem da familia onde estaria o seu pai, que não vinha dar-lhe um beijo de boa noite... (E Mario, o fiel amigo, muitas vezes estivera em sua casa, substituindo-o como palhaço nas ocasiões em que se encontrara detido pela policia). |


