| Quando chegou à clinica naquela manhã, a secretária do medico, como de costume, recebeu-o cordialmente: - "Bom dia doutor. Tudo bem? A sua primeira consulta hoje é com a cliente Lucia Serafim. Também telefonou um senhor muito ansioso, querendo falar urgente com o senhor." -- "Bom dia! Como vai? Ele é cliente?" - "Não o conheço. O nome dele é Carlos Silveira." -- "Pois bem, se ele telefonar, marque-lhe uma consulta." Ao entrar em seu gabinete, notou que tudo se encontrava nos seus devidos lugares; o ambiente transpirava limpesa e arrumação. Sentou-se, pegou a ficha médica da cliente a chegar, uma rapariga de seus 18 anos, com a qual havia estabelecido uma sessão preliminar de psicoterapia. Ela vinha indicada por um colega que a havia analisado e, diante dos sintomas de cleptomania, encaminhou-a aos seus cuidados. Após tê-la recebido, enquanto aguardava o próximo cliente, fez alguns telefonemas e começou a rever os dados clínicos de alguns pacientes. Estava absorvido nesta tarefa, quando a secretária avisou que o estava aguardando a pessoa que havia telefonado naquela manhã. Deixando as pastas de lado, pediu que fizesse entrar o possível cliente. Quando este entrou, o médico cumprimentou-o, indicando-lhe uma das poltronas em frente à sua mesa. Ele se apresentou, sentaram-se e, antes mesmo que pudesse perguntar alguma coisa, o cliente adiantou-se e disse: - "Doutor, o senhor precisa me ajudar com um sério problema que surgiu já há tempos com a minha mulher. Não quero mais morar com ela." --"Tudo bem, senhor Carlos. Explique-me o motivo de tanta inquietação." - "São os gatos, doutor! " -- "Ah! Entendo. A sua mulher o está traindo com homens mais jovens e bonitos? " - "Não, doutor, não acho que ela seja infiel. Mas quero me divorciar! " -- "E quais os motivos de querer separar-se dela? " - "Ai é que estão os problemas, doutor, os gatos de que eu falei, são os animais domésticos mesmo e não os jovens bonitões que algumas mulheres tratam de 'gatos'. " -- "Bem, pelo o que eu estou entendendo, o Sr. quer divorciar-se de sua espôsa simplesmente por causa de algum bichano? " - "É verdade doutor! O senhor aprecia gatos? " -- "Não"; mentiu, evitando influenciar qualquer reação emocional indesejada; tampouco misturar a sua vida familiar com a profissional. - "Então o senhor tem sorte". respondeu. -- "Sorte, por não ter gatos? Explique-se melhor, pois gostaria de entender o que o aflige em toda a profundidade. " - "Doutor, eu não quero sòmente fazer uma consulta, eu desejo me divorciar o mais breve possivel, pois a minha situação em casa é insustentável. " -- "Tudo bem. Mas quero lembrá-lo de que a minha ajuda será exclusivamente psíquica, legalmente o senhor terá de ser assistido por um advogado. Mas continue por favor. " - "Sei disto doutor, mas na eventualidade do meu caso ir a julgamento, terei de ser apoiado pelo parecer de um psiquiatra para comprovar que não sou um desiquilibrado mental." Em seguida começou a relatar: - "Tudo teve inicio há mais ou menos três anos atrás quando nos casamos. Naquela época tinhamos combinado sòmente ter filhos depois de dois anos, a fim de podermos curtir a vida com mais intensidade e até mesmo nos conhecermos melhor sem a preocupação com filhos; embora ambos adorássemos crianças. Só queríamos adiar a vinda de um filho para solidificarmos o nosso relacionamento. " Ele fez uma pausa e perguntou: - "É o caso de inúmeros casais jovens, não é doutor?" -- "Sim. Existe esta tendência entre os casais particularmente jovens. " - "Então preste bem atenção nesta parte que vou contar agora: Um dia, quando fomos a uma exposição agricola, a minha esposa insistiu em visitar um estande de doação de animais domésticos porque, segundo ela, era como se sentisse uma premonição. Mesmo contrariado, não quiz me opôr e entramos no local, que tinha o cheiro característico daquelas rações para animais. Lá dentro, ela dirigiu-se diretamente para um canto onde havia alguns engradados de arame e um cartaz que indicava ser ali a secção de doação de gatos." "Ela, ao ver os gatinhos, mais que depressa, disse: ' Meu bem posso levar um? Afinal, ainda não temos filhos e poderemos dedicar um pouco de carinho a esta linda criaturinha '. Respondi que um gato não poderia jamais substituir um filho, mas de nada adiantou. Mesmo depois de muita conversa, a minha mulher escolheu um dos filhotes, comprou uma gaiola e um pacote de cinco quilos de ração, além de outros acessórios que ela insistiu serem importantes para o confôrto e segurança do animal." Ele interrompeu a narrativa e perguntou: - "O Sr. percebe doutor, como eles fazem?" Parecia meio perturbado. -- "Eles quem?" - "Os doadores de animais. Eles doam os bichos e vendem o que querem para as pessoas, que acham que fizeram um grande negócio ao ganhar o animal, sem levar em conta que precisam tambem gastar com uma série de coisas para mantê-lo". -- "Ora, senhor Carlos, afirmou o médico, não acho que seja este o motivo para querer separar-se da sua espôsa, que diz amar tanto". - "E não é ! Logo o senhor vai entender". E continuou: - "Depois daquele dia, ela esfriou um pouco com o nosso relacionamento, pois entre tudo, o que mais lhe interessava era o gatinho. Questionei-a varias vezes sobre isso e ela me acusou de estar com ciúmes de um simples animal. Na realidade eu estava mesmo, pois o pequeno gato impedia-me de fazer carícias na minha espôsa. Ele estava sempre por perto e até parecia me olhar com ar de recriminação pelo o que eu fazia. Após mais de um ano de conturbado relacionamento provocado pelo gato dentro de nossa casa, eu resolvi que precisava acabar com aquilo e fazê-lo sumir para sempre. Teria para tanto de usar de meios dissimulativos para que ela nunca desconfiasse que pudesse ter sido eu o causador do sumiço do bichano." - "Um dia eu vi o malfadado gato passeando na rua. Acompanhando-o com o olhar, notei que ele parecia seguir rumo a um deposito abandonado que havia ali perto em um terreno baldio. Sorri de alegria, certo de que chegara o momento de livrar-me finalmente do meu indesejado rival. Talvez assim a minha mulher voltasse a relacionar-se melhor comigo e pudéssemos até ter o filho que eu tanto queria mas, que segundo ela, ainda deveria demorar, pois o gato lhe causava grande alegria." - "Está compreendendo doutor?" E foi logo seguindo com a narrativa: "Pois é, fui então seguindo o gato de longe, para evitar que ele se assustasse e fugisse. Chegando em frente ao galpão o bichano parou e, olhando para os lados como que procurando alguém, entrou ali rapidamente. Ainda esperei alguns minutos e dirigi-me ao local onde eu pretendia acabar de vez com aquele maldito." "Ao aproximar-me do edificio, surprêso, ouvi vozes que vinham do seu interior. Aproximei-me cautelosamente, procurando manter-me o mais silencioso possivel. Aproveitando a penumbra do entardecer esgueirei-me porta adentro, tomando o cuidado de passar desapercebido. Escondi-me por trás de umas tábuas que havia perto da entrada e quase que me desequilibrei, tal foi o choque que sofri. "No fundo do grande salão, havia um homem baixo muito esquisito, com vastos cabelos ruivos, encima de uma plataforma, voltado para uma platéia de mais de quinhentos gatos, segundo calculei, que pareciam ouvir e entender o que ele falava. Em linguagem normal dizia que a missão deles estava prestes a entrar em sua fase decisiva, pois milhões já estavam a pôstos e espalhados pelo mundo afora, apenas aguardando a chamada geral para assumir o comando e dominar em definitivo a decadente e maléfica raça humana." -- "Espere! " interrompeu o médico. "Você não pode estar falando sério, talvez seja a sua imaginação ou o produto de um sonho? " - "Doutor, por favor, escute o que tenho a contar e se achar que sou louco ou coisa parecida, pode me dispensar. " "Está bem, mas antes tenho que fazer um telefonema urgente" disse o médico, consultando o relógio com a intenção de ganhar tempo. Passou para a sala de recepção para refletir sobre o relato incomum que havia ouvido e ligou para um colega e trocar idéias sobre o que o seu novo cliente havia lhe contado. Após o retôrno do médico, este disse ao paciente que queria verificar cuidadosamente o caso, perguntando se havia mais detalhes a relatar. - "Sim doutor. Peço apenas um pouco mais de paciência. Como lhe disse, havia aquele homem ruivo estranho falando em linguagem normal aos gatos. Ele explicava que o plano que havia sido elaborado por sua espécie estava funcionando com sucesso e que ninguém jamais poderia imaginar que aquele artifício de doação de animais era apenas um meio de colocar milhões deles em lares humanos, para que no momento oportuno assumissem em definitivo o contrôle do planeta. Afirmou ainda que a forma de gato que haviam adotado tinha sido a mais eficente, permitindo ficar sempre junto das pessoas, vigiando e poupando energias, já que ninguém lhes exigia obrigação alguma em contrapartida de mantê-los dentro de casa. O ruivo, quase aos gritos, acrescentou que cada um deles era um espião infiltrado dentro do campo inimigo e que assim se mantivessem sem se deixar trair, apenas observando e convivendo da melhor maneira possível com os seus mantenedores humanos." "E continuou: "E assim, por mais de meia hora eu ouvi aquela insólita palestra para uma platéia que parecia entender tudo, pois todos os felinos estavam imóveis e concentrados e até pareciam sorrir ao ouvir o que o seu lider dizia. Eu, que tinha ido no encalço de um inimigo cujas reais intenções eu até então desconhecia, recuei de pavor e abandonei o local com rapidez para não ser visto e possivelmente devorado por eles". "Quase correndo, fui direto a um bar que havia perto de casa e tomei uns aperitivos para me acalmar. Mais tarde sai meio chumbado e fui para casa. La' chegando, encontrei a minha esposa sentada no sofá da sala com o bichano no colo. Ele pareceu sorrir de forma zombeteira quando me viu naquele estado. Minha espôsa recriminou-me e disse que naquela noite nem chegasse perto dela com aquele bafo de pinguço. Fui dormir no sofá da sala e depois deste dia, ela pouco olha para mim e tampouco me aceita, sempre alegando dôr de cabeça ou outro pretexto qualquer. Por outro lado, o gato está sempre se enroscando em volta dela ou passando entre suas pernas. Quando tento me aproximar, ele se encurva em posição de ataque e rosna com ferocidade". "Acho que a mente da minha mulher ficou completamente dominada pelo gato, pois entre tudo o que faz é sempre o animal que tem prioridade." Ele interrompeu a narrativa, e de forma resignada disse: - "Eu sei doutor, que é difícil acreditar na minha história, mas é a mais pura verdade". -- "Senhor Carlos", disse o psiquiatra, "realmente a sua história é muito surrealista, fantástica mesmo; mas na minha especialidade eu jamais descarto quaisquer possibilidades. A psiquiatria é abundante em fatos imprevisiveis e pretendo examinar com cuidado todos os ângulos da questão". - "É exatamente por isso que estou aqui; disseram-me que o senhor poderia guiar-me para que me separasse da minha espôsa." -- "Sr. Carlos, ja tentou falar seriamente com a sua espôsa ?" - "Tentar, eu tentei, mas de nada adiantou. Ela disse que eu precisava de um psiquiatra e até chegou a marcar hora numa das clinicas conhecidas da cidade. Porém consegui convencê-la a não ir, o que possivelmente poderia resultar em ser internado como louco e ver os gatos passando por minha janela zombando do meu infortúnio. Foi ai que decidi procurá-lo". -- "Tudo bem, eu posso até aceitar o seu caso, mas primeiro gostaria de falar com a sua espôsa. Desejo verificar se há a possibilidade de fazê-la compreender que o gato representa um motivo que poderá em algum momento provocar a separação entre vocês. Pode ser? " - "Esta' bem. Mas por favor, doutor, fale do assunto com muito cuidado, caso contrário ela poderá tomar medidas drásticas contra mim." Pediu a ele que repassasse o telefone para a secretária e se despediram. No final do dia, após ficar por mais de duas horas matutando sôbre o que havia escutado do seu novo cliente, encontrou nos arquivos database da Sociedade Psiquiatrica alguns casos de pessoas vitimadas pela fobia a gatos. Anotou os detalhes, sem esquecer de referenciar tudo com os dados ligados à narrativa que havia gravado. Quando já passavam das sete horas da noite, pegou as anotações que havia feito sobre o caso do Carlos e telefonou para a espôsa dele colhendo varias informações. Ele pretendia, ainda durante a noite, analisar e revêr alguns detalhes que poderiam ter passado despercebidos, pois aquela inacreditável narrativa o intrigara a ponto de interferir em sua concentração e serenidade. Durante a madrugada, um pesadêlo o acordou, deixando-o assustado e com a cabeça latejando. Vira formas estranhas saindo de dentro da lareira e envolvendo os corpos de homens e mulheres. Era como se espíritos de outras dimensões estivessem se apossando das pessoas. Aqueles que tentavam reagir eram despedaçados sem piedade. Concluiu que havia sido apenas um pesadelo, induzido pela intrigante história dos gatos. No dia seguinte, ao chegar à clinica, havia um recado urgente do cliente Carlos. O médico lhe telefonou e usou da oportunidade para lhe dizer o que lhe havia conversado com a sua mulher, que entre outras informações confessara que a situação com o gato era temporária e que há três dias o felino se encontrava desaparecido. O cliente, antecipando-se porém ao que o psiquiatra tinha a explicar sôbre isso - e interrompendo o pensamento dêste - afirmou em vóz alterada: - "Doutor, obrigado por me informar. O desaparecimento do gato de um lado é uma ótima noticia, mas de outro, penso que seja uma indicação de que o assalto contra os humanos já esteja em andamento. E outra coisa, é que ontem, por estar excitado, eu esqueci de lhe contar um detalhe importantíssimo do que eu ouvi daquela figura ruiva que estava no galpão com os gatos". -- "E o que mais foi que o Sr. ouviu? " - "Ele falava que quando chegasse a hora da revolta, eles deixariam as formas de gatos que ocupavam e iriam se apossar dos corpos humanos e todos aqueles que tentassem resistir seriam punidos. Também revelou que ele próprio era um gato selvagem da floresta, que havia se transformado em figura humana para poder distribuir todos os gatos recém nascidos no maior número possivel de lojas." Quando Carlos acabou de falar, o psiquiatra sentiu-se como que em um redemoinho aflitivo. O que havia sonhado coincidia exatamente com o que acabara de ouvir, mas dissimulou, embora estivesse bastante tenso com a situação. Sabia por experiência clínica que não raro sonhos se transformavam em realidade; entretanto, unindo este novo elemento a tudo o que havia deduzido do comportamento do paciente, chegou a conclusão de que se tratava de uma das manifestações de esquizofrênia e seria esta a linha que adotaria em seu tratamento. Antes que o paciente saísse, aconselhou-o a não revelar nenhum detalhe sobre o assunto à sua espôsa, para não alarmá-la e evitar que entre eles surgissem maiores problemas conjugais. Não que acreditasse que a revolução dos gatos fôsse concretizar-se algum dia; porém, naquele momento, tomou a drástica e nada honrosa decisão contrariando a norma de defesa dos animais: além de psiquiatra, seria um ferrenho oposicionista à manutenção de gatos domésticos. Ninguém poderia estar seguro quando se tratava de fenômenos da mente, nem mesmo o mais brilhante professor de psiquiatria, ele próprio passível de se tornar um esquizofrênico. (*) baseado num conto de autoria de Vanderleis Maia |
