


| CONTO CAPENGA Foi lá no sertão, eu acho né, pode ser até que foi na caatinga... O filho do caboclo, menos avisado, montando o alazão, entrou por bobeira num fôsso de agua funda e... se deu mal. De um lado tinha entrado um casco bravo, do fôsso o bicho saiu capenga e o caboclo, xente, perdeu o rebolado e se estatelou na lama. Foi pro casebre a pé, mancando, carregando sela, arreio e o pão que o equino amassou. E o cavalo? Desde então está de papo pro ar e à venda por um punhado de niqueis... O moço, por sua vez, se mandou pra cidade e foi trabalhar como estivador, pra mandar um dinheirinho pra mãe viúva. CONTO FAMINTO Das latas de lixo a gataiada já tinha se servido, pois eles eram ligeiros, de faro apurado e notívagos gaiatos natos. Lá pelas tantas, o pátio de trás do restaurante era uma zona só; foi quando apareceram os primeiros maltrapilhos, muitos com um saco nas costas, alguns com carrinhos de mão desengonçados. A comida adjeta que restou os esperava espalhada na casamba, não seria a primeira vez. E não é que comeram e cada um seguiu o seu caminho? Na madrugada seguinte os gatos emitiam cânticos mais lugrubes do que os de costume, como que homenageando a ausência dos três indigentes que tinham sido enterrados horas antes, envenenados por intoxicação alimentar... CONTO BREVE Matias. Adaljiza. Barraco. Cama. Aiiiiiiiiiii.... continua, continua amor, pô, não para não; foi só o burbulhar do meu silicone deslisando pra barriga... traaansaaa... tô quase gozando! CONTO ESTÚPIDO O cara era casca grossa, tinha fugido da escola. Um metido a besta, meia boca cariada, veias intumescidas pelas agulhadas do vicio maldito. Esquelético, comia pouco e bebia demais. Sofria de cirrose, doença capeta. Pouco lhe importava, pois a morte, havia decidido, seria apenas uma energização complementar do sistema nervoso central, com a insignificante diferença de que, desta feita, o torpôr duraria uma eternidade. Apesar do maior estúpido, agiu como aquele mesmo filósofo que acreditava na reencarnação e perdeu a chance de transformar o mundo quando deixou de respirar. CONTO ESVERDEADO Certo dia foi visitar a floresta. Tudo verde; ficou procurando o cinza, o preto, o laranja e o roxo. Mas só dava verde; até que subiu numa arvore alta e de lá viu a cidade, coberta por um impenetravel véu âmbar. Muito mais bonito o verde, pensou, acho que vou defecar ali mesmo, ao lado daquela frondosa seringueira... CONTO MAL CONTADO Pega pelo marido na cama do entregador de pizza. - "Não enfeza não Carlinhos, quem tava comendo era ele, eu detesto anchôvas". CONTO DESPEDIDA Entrou na curva em "s" a 120 por hora, peneus rangedo, cigarro caído no canto da bôca, musica metálica em alucinantes decibeis. Passou o farol no amarelo piscando e com maestria encostou o carrão a meio fio, junto à casa da gata. Pulou pra fora, alisou a barba e ajeitou a posição do saco espremido na cueca. Quando percebeu que a casa estava desocupada, ficou puto e chutou o portão com violência. Ai, abriu a braguilha e deu a maior mijada em cima do sofazinho esfarrapado da varanda, onde tantas vezes havia se enrroscado com a sua musa, de corpo escultural, que o abandonara para sempre. Fez o que tinha de fazer e se mandou com o rabo entre as pernas. O CONTO DO PREFEITO - "Caros compatriotas, obrigado por terem vindo escutar a minha sincera mensagem a todos os queridos vilaneiros. Como sabemos, o nosso rincão e' pequeno, mas defensor dos mais elevados principios de justiça e solidariedade ao proximo. Estou aqui hoje para apresentar o meu plano municipal, que se resume em um unico topico fundamental: Transformar Vila Rasa em um lugar futurista. Dentro de um mês serão iniciadas as obras de uma monumental e super moderna avenida que cortará em toda a extensão a nossa modesta cidade e tomará o nome de Avenida da Profundidade. Esta obra não terá comparação a nenhuma outra rodovia no mundo. Será construida com tecnologia japonesa de ultima geração, contendo pistas anti-derrapantes em tres niveis com portais laterais automaticos, ventilação hiperbólica, contrôle térmico, além de transportadores gigantes rotativos acionados por raios lazer e energia eolica. Por meio desta magnifica avenida poderão abandonar a cidade todos os seus 28 habitantes dentro da maior segurança, confôrto e tranquilidade. Nos vindos 90 dias Vila Rasa será totalmente cercada por alambrados modulares de fibro carbonado blindado, contendo um único portão de acesso de alta precisão, monitorado por cameras de alta sensibilidade. Milhões de visitantes estarão sendo esperados para ganhar acesso a esta incomparavel obra da engenharia rodoviaria. Os lucros, que espera-se sejam milionarios, serão divididos entre o pai do projeto - este seu modesto servidor - e os nobres correligionarios egressos de Vila Rasa, que daqui para frente sera' redenominada para 'Vila Suprema 28'. Boa noite, felicidades a todos e não se esqueçam de prestigiar a nossa Casa da Moeda Real com o depósito de seus futuros dividendos. Em meu nome, no de minha familia e no do oligarquiado municipal, meu muito obrigado e que o Senhor os abençoe." CONTO POLICIAL A policia já estava ali; os guardas atravessando a sala, derrubando tudo em seu caminho. Podia ouvir seus passos ecoando nos degraus ocos da escada. Tinha apenas uns instantes mais. No último, encostou o cano do '38 na têmpora direita e apertou o gatilho... (Os tiras o encontraram fitando a arma descarregada com cara de tacho - pois no intimo nunca tivera a intenção de se matar... ) NECRO CONTO Os ponteiros do antigo relógio da Estação Central indicavam menos de dez minutos para as 4 da manhã. A figura franzina cavalgando um alazão preto e vestindo um longo capote, estancou por um momento na entrada lateral de acesso ao nicrotério municipal. Estava atrasado. Apeou de um pulo, cobriu o rosto com a gola do casaco e adentrou o edificio quase correndo. Esgueirou-se entre as várias mesas metálicas espalhadas no subsolo da frigida sala de autopsias, jogou o capote com impaciência pro lado e foi deitar-se numa das gavetas da ampla parede refrigerada. Estava regressando do encontro com o Conselho de Almas do Cemitério Central, que o convocara para uma entrevista e outorgação das credenciais status mortis, antes da cremação do seu corpo ao raiar do dia. CONTO DEVANEIO Sentado estava eu no coletivo, na minha frente uma linda moça de pernas cruzadas. Cabelos castanhos e olhos verdes. Lábios carnudos e tez morena tostada. Da mesma tonalidade eram seus braços desnudos e as partes à mostra de suas pernas bem torneadas. Apesar da roupa primaveril, saia midi de cor branca levemente esfumaçada e um par de sandálias combinando com a sua blusa turquesa de bom gosto, o máximo que os olhos podiam virtualmernte vislumbrar e a imaginação cristalizar, naquela atraente criatura, eram o contorno dos seios medianos e empinados, assim como os joelhos sensuais, flexionados com elegância a meio caminho do pecado. O rosto da jovem era delicado, de traços suaves, queixo levemente arredondado, nariz de arrebitamento gracioso e proporcional, o que conduzia às suas enormes pupilas cintilantes, cílios armados e grossas sobrancelhas. Completando, uma franja de cabelos cobrindo a fronte, de um todo terminando em um coque real no topo da cabeça, que coroava todo o conjunto. A rapariga não ostentava nenhum colar ou bracelete. Apenas brincos reluzentes e uma combinação de anéis em ambas as mãos, o que dificultava identificar o seu estado civil. Eu esquadrinhava, imaginava e pensava com os meus botões (da braguilha): "Se o pilantra for romântico ele pode até ter boça para falar com a garota, mas precisa também de peito e cara de pau". Improvisar uma situação convincente de abordagem não é para qualquer um. O cara tem de ostentar a altura de pelo menos 1.80, vestir-se com elegância, desodorante discreto, sapatos esportes limpos, linhas simpáticas do rosto, barba bem aparada e camisinha de prontidão. Da parte dela, não iria ficar correspondendo a olhares de qualquer um, muito menos de alguém como eu, longe de preencher os requisitos mínimos do paquerador clássico. Já estava farta de saber que os machões espalhados pela cidade viviam espreitando os traseiros salientes das mulheres, com a ideia fixa de envolvê-las antes com palavras doces para depois, marota e sutilmente, atraí-las com beijos e amassos para a cama. Ora, todos se comportam segundo o que Freud classficou de "cabeça sexual", pois na vida do "vamos ver", em todos os níveis e classes, se manifestam, repetitivamente, as corridas dos mastins no encalço de suas presas. Estas, na maioria dos casos, salvas as aparências, não se fazem de rogadas. A menos que no processo haja violência e estrupo, coisas que levam os criminosos às barras dos tribunais. Como Freud não entrou em pormenores quanto a diferença de mentalidade sexual entre o homem e a mulher, é de concluir-se que ambos tem seus instintos repletos de volúpia e libido, fato que enaltece uma das mais enlevadas leis da natureza, qual seja a procriação das especies. Homem e mulher, juntos desde o Paraíso, gozando, sempre unindo o útil ao agradável. ♀♂ |



