ESTA VIDA É UM BURACO ©


Carlos estendeu a mão para o gerente de crédito do banco e já ia se levantando
quando o telefone tocou. Esperou que terminasse a conversa para se despedir.
Foi então que o funcionário se levantou e disse:
-- "Sr. Carlos, o Ciro, o sub-gerente, está te convidando para a sala dele".
-- "Obrigado, já vou lá.  Até logo! ".
Saiu da sala e foi subindo as escadas para o segundo andar.
--  "Como vai Ciro, posso entrar ?" sentando-se a seguir na cadeira que o outro
lhe indicava.
-- " Sente-se! Espero que tudo bem com você! Escute, acabei de autorizar uma
operação de empréstimo no valor de 10 mil  que você solicitou. Apesar de
ser sempre ordeiro e manter saldo positivo na sua conta, posso ver aqui que
não existem depositos regulares e que o seu saldo está abaixo do limite para
garantir um empréstimo. Vamos fazer o seguinte:  vou lhe dar 12 meses
suplementares para  pagar as prestações, mesmo que os juros sejam um pouco
mais elevados, assim elas ficam numa faixa de 350 dólares por mês. Espero que
possa arcar com os pagamentos".
-- " OK. E o cartão de crédito, perguntou, dá para receber um limite além dos
mil dólares?  Vai ficar meio apertado..."
-- " Vocês vão ter de se virar com esta quantia mesmo. Entenda, não quero que
entrem em saldo negativo,  para evitar o cancelamento do cartão de crédito.  
Só em casos especiais, quando o cliente se vê em situação de emergência no
exterior é que o banco pode conceder a cobertura de determinados gastos
atraves da Cia. de Seguros. Desejo que tudo corra bem, boa viagem e até a
volta".
-- " Certo Ciro, entendo perfeitamente. Vamos fazer o possivel para guardar o
limite do crédito. Obrigado então e até mais ver".
-- " Carlos, aguarde um pouco lá no saguão, quero que o Rafi te acompanhe."

-- " Oi, Rafi, como é, tudo legal?"
-- "  Vamos indo,  muito trabalho com certos clientes.  Agora estou no Depto.
de Operações Externas e não é nada mole.  Tem que tratar com tanta casca
grossa, ser insultado, até agredido já fui  e ter de ficar quieto.  E você, soube
que vai pro Brasil, que legal, queria um dia também viajar pra lá para ver
aquelas mulatas gostosas e visitar o Maracanã. Escute,  fui instruido para
darmos um pulo na sua casa, a gente te encontra lá daqui a uma meia hora.  
Ao invés de você voltar de novo pro banco, vamos pegar a assinatura da sua
mulher no contrato lá mesmo,  OK? "
-- " Tudo bem, quando chegar em casa já vou explicar tudo a ela. Até mais."


- "Pô, o Ciro lá do banco não tá dando mais moleza, mas até que ele foi bem
realista comigo. Cida, você também vai ter de assinar o contrato do empréstimo.
Daqui a pouco vem alguém pegar os papéis. Até que estão dando um
tratamento vip pra gente, vai ver que é para compensar o negócio do cartão de
crédito..."
- "Carlinhos, você tem certeza que a gente vai poder arcar com esta despesa?
Estou preocupada e além disso você sabe muito bem que viagem pro exterior
implica em vários gastos, quero também perder alguns quilos e comprar
roupas adequadas... estou me sentindo muito mal do jeito que estou... "
- "Cida, cá entre nós, você deveria se sentir animada em ir ver a tua familia.
Não é a primeira vez que você vai fazer um regime, que já fêz várias vezes
e conhece como funciona. Agora começaram a aparecer alguns clientes,
se a gente não se decidir e cortar certas despesas e economizar, vamos
constantemente adiar esta viagem.  Acho que podemos viajar dentro de uns
três ou quatro meses, depois que a Bia der à luz."
- "Então escreva pro Décio explicando o assunto e também sôbre o desconto
que o teu primo conseguiu na Alitalia. Precisa saber dele e da Lina qual a
época mais viável pra receberem  a gente lá."
- "Tudo bem. No fim vai dar tudo certo, OK?"

Latidos do pintsher no quintal. Carlos e Cida não dão bola, pois sabem muito
bem que o cachorro late para qualquer fôlha que se move nas árvores.
Continuam trocando idéias. O pintcher segue latindo. Lá fora se ouve o vozerio
de pessoas vindo dos fundos da casa. Carlos se levanta.
-- "Vou dar uma olhada."  Abre a porta e nisso irrompe na sala o gato pretão,
em busca de comida.
--  "Era o gato, porra".
O pintsher continua latindo como um desvairado.

Passados poucos minutos, batem na porta. Carlos vai atender e se depara com
um cara que diz ser do banco.
-- "Vim trazer o contrato do banco para o Sr.Carlos, é o Senhor?"
-- "Sim sou eu mesmo. Assinaremos os papéis num instante".
-- "Obrigado".
Carlos lhe devolve os documentos assinados.
-- "Queria mostrar também uma coisa aqui fora pro Senhor."
Os dois saem, o pintsher quase doido de tanto latir, do outro lado do
gramado estão mais três homens em roupa de trabalho.
-- " Sr. Carlos, peço que nos desculpe e não fique bravo, mas pelos seus
próprios interêsses, por instruções do banco central, abrimos um buraco ali no
canto do gramado. Esta foi a maneira mais eficiente que o banco encontrou
para conscientizar determinados clientes da seriedade de honrar os seus
compromissos. No seu caso, o Sr. foi classificado como um devedor com pouca
elasticidade de recursos. Para tanto, quando se sentir pressionado ou
deprimido, ao invés de vir chorar suas mágoas com o gerente do banco, nós
recomendamos que pule para dentro do buraco, pois no momento em que o Sr.
apelou pro empréstimo foi como que se enfiar até o pescoço num buraco de
dívidas. Aqui está uma carta explicando tudo. Dentro do buraco pode ser  
encontrada uma caixa com uma série de recomendações, inclusive o telefone de
um psiquiatra de nossa confiança, para o caso de um cliente querer se
suicidar...   Passe bem Sr. Carlos e boa viagem!"
Os impropérios do Carlos foram tão estridentes, que fizeram com que os
funcionários do banco fugissem em disparada. E o pintsher, coitado,  de
repente ficou mudo e foi se encolher tremendo em seu canto.
As folhas das árvores, por sua vez,  indiferentes, continuavam  a se mover ao
vento, assim como a vida, ao sôpro do destino.


                                                                                                                    

por Salo Yakir - Maio, 2008