Salo Yakir - Dezembro, 2008




Cabisbaixo, Patrick cruzava a Praça Central. Sol abrasador, atravessou a rua e entrou
instintivamente no primeiro banco comercial que viu,  procurando um canto refrigerado
onde pudesse relaxar. Fazendo-se passar por cliente, fingiu preencher  um formulário que
escolhera a êsmo, percorreu o saguão com olhar hesitante e sentou-se pesadamente
numa das poltronas ao lado dos caixas. Debruçando-se para a frente, esfregou
nervosamente os  olhos injetados com dedos tremulos. Através da parede envidraçada do
gabinete da gerência, observou que o relogio indicava 16:40 horas.

O dia estava mesmo perdido e de qualquer maneira ele não estava motivado para fazer
nada de construtivo. Ficou ali melancolico, remoendo intimamente a entrevista que tivera
naquela manhã para o recrutamento compulsório aos Serviços de Inteligencia da
Aeronautica. A entrevista, as cinco horas de testes psicométricos e os exames médicos
tinham sido mais meticulosos e exaustivos do que esperara. Sentia-se confuso e
extenuado.

Se alguma coisa de positivo acontecera naquela manhã, foi o  encontro na Escola Militar
com um ex-professor da universidade, Jules Baldiere, que atuava como coordenador do
departamento encarregado de selecionar os candidatos para os Serviços de Inteligência.
Baldiere havia feito alguns comentários, lembrando que Patrick fora um de seus alunos
mais aplicados, observando também que o achara muito palido e envelhecido. O
professor não tinha idéia das agruras pelas quais ele havia passado, porem nada lhe
revelou e se despediram trocando os respectivos numeros de telefone.

A história de Patrick  retrocedia à Invasão do Iraque em 2002, envolvendo os USA e
as forças aliadas de um lado e o Iraque do outro.  A ditadura de Houssein  fôra
repetidamente advertida de possivel ação militar, sob suspeita de manter armas quimicas
e biologicas e pelas repetidas evasivas de permitir o exame de seu arsenal por inspetores
da ONU. No decorrer dos ataques aereos sobre Bagdad e outras cidades, o helicoptero
que Patrick pilotava fora abatido e ele feito prisioneiro.  
Ainda se esforçava por apagar da mente o terrivel episódio nas prisões dos extremistas
iraqueanos, os interminaveis interrogatorios, o maltrato, a humilhação, as cicatrizes pelo
corpo e a depressão do espirito. Estava em fase de enfrentar ainda o processo
investigativo da USAF que corria contra ele. A queda do seu "Cobra" não fora ocasionada
por um foguete antiaereo como a investigação inicial indicara mas, sim, por um
projetil-bazuka portatil "koss" russo. Esperava-o ainda um longo e desgastante processo.

Desanimado e entregue a conflitantes devaneios, Patrick não conseguia se libertar da
permanente angustia que o envolvia. Faziam três anos que voltara a São Francisco, sua
cidade natal, apos ter sido resgatado por um esquadrão das unidades especiais
americanas. A principio fôra aquela alegria da familia e seus colegas da força aerea, mas
logo em seguida entrara em um rodamoinho de exames medicos e acompanhamento
psiquiatrico. Durante quatro meses prestara depoimentos do acidente em detalhes,
descrevendo os metodos terroristas de interrogatorio. Seis meses numa casa de repouso
e quase um ano submetido a testes e depoimentos no processo da USAF. Completara 33
anos, porém sentia-se como um velho.

A indenização que recebera do Ministerio da Aeronautica tinha sido generosa. Entretanto,
por questões de alta sensibilidade de segurança, colocaram-no em status especial,
primeiramente permanecendo incognito sem residencia fixa e mais tarde comissionado ao
Ministerio da Agricultura como piloto de aviões leves de pulverização. A verdadeira
intenção  da USAF, era proporcionar a recuperação psiquica de Patrick e incorporá-lo a
um de seus departamentos de interceptação de mensagens militares do inimigo junto à
CIA, graças ao conhecimento de jargões árabes que aprendera no cativeiro.

Continuava ali sentado de olhar fixo no ar, como se estivesse sobrevoando nuvens
negras ameaçadoras. Passaram-lhe ante os olhos, como um lampejo amarelo-alarenjado
de uma explosão, aqueles momentos traumatizantes em que havia saltado do "Cobra" em
chamas, o tremendo choque contra o ar ao ser expelido da cabina pressurizada, a queda
descontrolada do para-quedas, o baque contra o solo rochoso e por fim a captura em
semi-consciência.

O que mais Patrick almejava naqueles dias era permanecer sòzinho consigo mesmo,
tentar concentrar-se e procurar escapar do interminavel jugo que sobre ele exerciam os
elementos dos servicos secretos, cada qual com suas exigencias e ditamento de conduta.
Estava simplesmente farto de tudo aquilo, queria desesperadamente despreender-se do
tragico passado e sentir-se livre para seguir em frente. Mas parecia-lhe que não havia sido
suficiente o sofrimento que passara como prisioneiro. Apos a sua libertação, Patrick havia
se tornado um homem marcado, um elemento de risco para a segurança nacional em
virtude de seu desiquilibrio emocional,
uma figura imprevisivel que poderia num impulso súbito comprometer vitais
segredos militares do país.

Agora lhe parecia claro que aquilo que não lhe inflingira a queda do "Cobra" e o  
calabouço, teria ele mesmo de provocar, pois a prisão em que se encontrava agora era
como que perpétua e opressiva, sempre vigiado, conduzido, manobrado como um
autômato, tudo em prol dos interesses da patria. O sofisticado helicoptero havia lhe salvo
a vida, mas agora não passava de um morto-vivo. Os seus interesses e liberdade de  
movimento não mais contavam, haviam sido usurpados para sempre.

O seu último pensamento equilibrado fôra a possibilidade de pedir ajuda ao Prof. Baldieri,
mas logo descartou a possibilidade dado o envolvimento de seu amigo com a CIA.
Sentindo-se desnorteado e como se houvesse sido comandado por uma ordem superior,
Patrick investiu contra um dos guardas de segurança próximo, arrebatando seu revolver e
correu para o guichê de um dos caixas , proferindo uma série de gritos em árabe, entre
profundas convulsões e acessos de choro e gargalhadas. Diante dele emergiu o rosto
estarrecido do caixa, no qual reconheceu aquele mesmo comandante terrorista que lhe
havia esmagado a  personalidade e seu equilibrio emocional. Em seus delirios, começava
a materializar-se a seu lado a silhueta de Baldieri, que procurava contê-lo; porém, antes
que pudesse esboçar outro movimento qualquer, sentiu a intensa dor de uma bala
penetrando seu peito, uma explosão amarelo-alaranjada ofuscando a sua vista e uma
sensação enfim tranquilizadora, libertando-o, desta vez sem para-quedas,  pelo vácuo do
além mundo.

                          
A QUEDA DO "COBRA" ©