Por: Salo Yakir / Maio 2005


A cigarra não passa de um pequeno inseto, cuja característica principal é o seu silvar
intenso e estridente. Relata a fábula que enquanto a cigarra emitia o seu incessante
estribilho, a formiguinha se dedicava à tarefa de construir a sua toca e armazenar
provisões para o inverno. O fim da história, todos conhecemos...

Israel é considerado como um dos menores países do mundo territorialmente falando e
é reconhecido como uma nação de sofisticada tecnologia, que remonta aos tempos de
recuperação dos pantanais e das áreas desérticas, das revolucionárias técnicas agrícolas
e sistemas de irrigação adotados em diversos países. Também nos campos da medicina,
"hi-tech" e software, energia nuclear e solar, indústria armamentista, aeronáutica e
espacial, hidrologia, etc, etc. este país se destaca mundialmente.

Todavia, o que acontece no cotidiano, ultrapassa em complexidade a imagem de Israel
no cenário internacional e o rotineiro conflito com os palestinos. Aqueles menos
atentos à dinâmica social e política do país ficariam escandalizados com a capacidade
que esta micronação tem em emitir do "Knesset" (parlamento), os mais estridentes
ruídos que reverberam em tumultos políticos e de protesto, em nivel das mais agitadas
platéias populares européias.

Enquanto que a formiga palestina se prepara para os próximos invernos, que sugerem
temperaturas abaixo do normal, a cigarra israelense continua se empavonando de cima
das muralhas de segurança, defendendo a frágil premissa de que "se os hebreus
lograram sobrepujar o Faraó do Egito conseguirão também sobreviver sem problemas
as geadas que estão à sua frente...". A cigarra tem estado ativa no parlamento
israelense, onde não faltam discordâncias extremas e confrontações sem fim, quer
devido a desocupação de Gaza, quer devido ao escândalo eleitoral que envolve um dos
filhos de Ariel Sharon, e, não menos importante, em virtude das amargas divergências
no tocante à tendência econômica, cuja drasticidade infligiu a quase dois milhões de
habitantes - dos quais 700 mil crianças - sérias dificuldades de subsistência nos últimos
dois anos. Para agravar o quadro, várias instituições internacionais de estatística
qualificam Israel, no ano de 2004, como um dos dez países mais corruptos sob o
aspecto político e, proporcionalmente comparando, como um dos países que mantém
uma das populações mais pobres do mundo.

Na grave questão da desocupação das colônias de Gaza, a opinião pública do país está
confusamente dividida. Enquanto aqueles partidários de direita no Likud, atualmente
no poder, depositam de um lado plena confiança no primeiro-ministro Sharon, de
outro se defrontam com o dilema da infringência de um dos principais axiomas do
estatuto partidário, qual seja a incondicional salvaguarda territorial do país. Isto viria
em contradição com o desmantelamento das colônias ortodoxas ali existentes e a
devolução de terras aos palestinos. As facções religiosas, por sua parte, têm
sistematicamente organizado passeatas de protestos, procurando penetrar na área em
litígio de Gush Katif (norte de Gaza), porém sem sucesso, reprimidos que têm sido pela
enérgica ação das fôrças policiais e militares.

Evidentemente, este quadro político vem minando a integridade política nacional.
Como consequência, o ministro da Fazenda e ex-primeiro-ministro Beniamin
Nataniahu, acaba de demitir-se do govêrno por motivos de divergência ideológica com
a cúpula governamental no que toca à questão de Gaza. A verdadeira intenção de
Nataniahu, no entanto, segundo todos os indícios levam a crer, seria provocar a
antecipação das eleições gerais para o final de 2005 ou inicio de 2006, nas quais
disputaria o cargo de primeiro mandatário como principal candidato oposicionista. O
ministro demissionário também se vale do clima geral para acusar a atual liderança
palestina de apatia e indiferença totais frente às ações terroristas, o que provavelmente
viria a desencadear, segundo sustenta, a intensificação das confrontações nas fronteiras,
quando concluída a desocupação de Gaza.
Gaza: O pomo da discordia ©
por Salo Yakir - Maio 2005