O Guardião de Bezerros ©

(Conto quase verídico - por Salo Yakir / Junho 2009)


Há semanas Peter aguardava que o coordenador de trabalhos do kibutz o
enquadrasse em um dos serviços noturnos de vigilância do curral. Fazia seis
anos que trabalhava como vaqueiro permanente, preenchendo a função de
encarregado geral do setor de bezerros.   

Trabalho noturno. Estava ele de plantão numa daquelas madrugadas de lua
cheia, mugido de vaca e uivo de cão soando a lobo.  Mergulhado em profunda
aborrescência, blasfemando contra o calor pegajoso de Julho e do odor fétido
dos excrementos, brotou em sua memória o pensamento de determinada
situação que teria de enfrentar ao amanhecer,  o que o fez despertar para a
realidade.

Levantando-se de súbito, abandonou a poltrona esfarrapada onde se acomodara
e lançou um olhar pela janela panorâmica da guarita, em direção ao cercado dos
bezerros recem-nascidos. Naquela primeira quinzena do mês, haviam se juntado
nada menos do que 72 novas patas `as 160 que perambulavam de cima para
baixo sobre as estrias de feno na terra batida. Eram patas pacas! Multiplicadas,
essas patinhas valiam muito dinheiro. 58 bezerrinhos times 1500 shekalim por
pata, somava aprox. US$100,000.00. Dai a necessidade de se manter contínua
vigilancia em tôrno daquelas meigas cagonas, dia e noite.
Nos últimos meses, quadrilhas de ladrões haviam se infiltrado em currais da
zona do Monte Tabor, roubando e carregando bezerros em caminhonetas no
meio da madrugada.

Abrindo a porta de metal da guarita, botou o boné e ajeitou a alça de seu fuzil
"Uzi" em volta do ombro. Lá fora, a lua cheia projetava sobre o terreno um
amplo tapete prateado, e uma corrente de ar quente se deslocava em direção
ao Tabor, ao sopé do qual faiscavam as luzes da aldeia árabe "Daburia".
De lá, suspeitava-se, seriam alguns dos ladrões que vinham acarretando
consideraveis prejuizos aos currais dos kibutzim.  

O monôtono e contínuo canto-mugido das vacas, unido ao ronco do compressor
de ar do galpão da ordenha, encobriam quaisquer ruidos suspeitos nas
redondezas. Dai a necessidade das rondas regulares pelos limites do curral.
Galgando sua ágil mini-moto "Honda", Peter ajeitou o capacete de proteção,
testou o seu intercomunicador com a central de segurança e partiu em direção
ao galpão de ordenha onde trabalhavam três vaqueiros, no turno das 3 `as 8 da
manhã. Um deles, o chines  Li-Shan, acenou quando ele se aproximou, dando a
entender que estava tudo normal. Na passarela da ordenha pôde identificar a
"Madona" e a "Froide", duas das leiteiras mais fecundas entre os rebanhos de
toda a região. Enfileiradas estavam outras seis vacas, expelindo de seus ubres
litros e litros do "petroleo branco", que eram automaticamente armazenados em
tanques refrigerados. Pelo menos aqui,  no centro de armazenamento do leite,  
não havia roubos, pois a ordenha, em função das necessidades biologicas das
vacas, se processava em turnos ininterruptos durante as 24 horas.

Peter prosseguiu pela estrada de terra esburacada, castigando suas nádegas a
cada salto da mini-moto. Chegando ao setor fortemente cercado dos bezerros
maiores, completou cuidadosamente a contagem das cabeças, pois àquela
hora da madrugada o ofuscamento da visão provocado pelos fortes holofotes
tornava dificil contar com exatidão o número de patas. E também perigoso, pois
repentinamente poderia surgir do meio da escuridão algum  touro desgarrado,
ou cruz credo alguma cobra venenosa...

Tudo conferido, seguiu para o depósito das rações e do feno, passando pelo
silo, pela Casa das Máquinas, estacionamento dos tratores e da Clinica
Veterinaria. A seguir, fez uma volta completa pela cêrca de segurança, ao longo
da qual se podia ouvir o latido dos caẽs pastores que guardavam o local.

Às 6:10 da manhã, quando voltou à guarita, já o esperava o guarda do turno
seguinte, ao qual passou o equipamento de segurança e preparou para ambos
uma revigorante chicara de café. Enquanto o guarda trocava de roupa, saiu Peter
sorrateiramente e, dirigindo-se ao cercado próximo, agarrou um dos bezerros  -
pois no sabado pretendia servir um churrasco - cobrindo-o com uma lona e
amarrando-o ao bagageiro de sua motoneta, que escondeu entre as sebes na
saída do curral.

Finalmente, despediu-se do guarda e partiu para casa, cortando caminho pelo
zoologico das crianças, onde, ao meio da revoada dos empertigados gansos e
pavões, lhe grasnaram um bom dia ao meio de uma empoeirada agitação de
penas.
Ao trazer o bezerro para casa, pôde respirar com certo alivio, pois havia
conseguido resolver facilmente esta  preocupação que o havia acometido na
noite anterior. Seus pensamentos, porém, continuavam confusos, a ponto de
impedir que adormecesse, pois havia outro motivo mais grave com que se
preocupar. Ele temia que descobrissem as irregularidades que vinha praticando
no trabalho. Uma auditoria mais cuidadosa certamente revelaria um déficit no
registro de nascimento, abate, venda e morte dos animais. Nos últimos dois
anos, Peter vinha clandestinamente vendendo bezerros, adulterando os
registros e fazendo crer que haviam morrido durante a criação. Para isso, estava
mancomunado com uma quadrilha de traficantes de gado, cujo chefão viria
naquele próximo sábado saborear a tenra carne do bezerro roubado.