O ego me induzia a pensar que aquele cara de cabelos caídos na testa e bem apessoado,
devia ser o maior antipático. Metido a besta. Fuinha. Arrogante. Isto, após tê-lo visto pela
primeira vez ali na festa da Julinha, sem ter trocado siquer uma palavra com ele.  A aparência
e a pose do bacana provocavam um baita estrago na minha auto estima. A tal ponto, que
fiquei acompanhando cada gesto daquela figura de porte alto e elegante, em especial quando
rodeado pelas moças; em algumas passando a mão nos braços desnudos e a outras agarrando
pela cintura. O tipo era mesmo popular, sabia disso e espalhava o maior charme à sua volta.  
De minha parte, não conseguia nem conversar direito com as poucas pessoas do meu circulo,
pois dirigia toda a minha atenção e ouvidos às risadinhas e comentários que se faziam ouvir a
poucos metros de onde me encontrava. Sem que tivesse percebido, já haviam passado por
mim o garçon da champanha, as moçinhas servindo salgadinhos e coxinhas, o bolo e as
bebidas. E eu, destilando a maior raiva, continuava sem tirar os olhos do Nando,
este era o nome, conforme fiquei sabendo, do metido a bacana.
A certa altura, quando o DJ acionou o equipamento acústico, abriu-se espontaneamente uma
clareira no salão e dezenas entre os convivas se acasalaram para bailar animadamente. E não
deu outra: Quem mais se destacava, dando um show de passadas, não era outro senão o
Nando, que esbanjava ritmo e destreza em suas calças agarradas, dançando
simultaneamente com três lindas raparigas. Encolhido atrás de um pilar, eu acompanhava
cada um de seus gestos, desejando no intimo que se esborrachasse.
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Até alguém como o nosso herói tinha suas necessidades fisiológicas. Após deixar a pista de
dança e cair prostrado numa cadeira, Nando se recuperou passados alguns minutos e
dirigiu-se apressadamente em direção do banheiro. Eu, que não o perdia de vista,
aproveitei a oportunidade para segui-lo, com a intenção de finalmente tirar com êle os pratos
a limpo. Ficamos os dois por ali, no meio de uns outros 4 ou 5 apertados. A fila movia-se
devagar e eu o espiava de soslaio, esperando a chance de ocupar o banheiro antes dele.
Disfarçando, todo dono de si, o cara mexia com o celular enquanto se apoiava com um pé na
parede.
- "Desculpe... Tome cuidado para não sujar a parede", disse-lhe amistosamente, numa
tentativa de desbancar o bacanão.
- "Puxa, é mesmo! Estou apertado, sabe como é que é..." respondeu-me meio sem jeito.
- "Não é nada mole... cuide-se para não molhar as calças, pois iria pegar mal pacas..."
- "Ha-ha-ha... Nem vou esperar mais... Estou numa pior...Vou é mijar lá no jardim mesmo.
Você vem? "
- " OK. Espero que não fique chato. Aqui pelo jeito ainda vai demorar. Vamos indo..."

Lá fora, a lua cheia derramava sôbre o amplo jardim uma claridade sépia e envolvente.
Circundando a casa, começamos a procurar um canto discreto para nos aliviarmos. Eu, que
não estava em estado critico, fiquei na minha enquanto que Nando, não aguentando mais,
corria para o primeiro arvoredo para livrar a bexiga.
Nisto, notei que um casal de namorados emergia de uma das alamedas próximas. Era a
minha vingança que se aproximava... Dando de cara com o nosso amigo em posição
contemplativa, a moça, que não era outra senão a Julinha em carne e osso, a dona da festa,
deu um grito de horror e se pôs a correr em direção da casa, ao meio de abafadas risadinhas.

Desconcertado, o nosso guapo cavalheiro ainda tentou disfarçar mas, afobando-se, molhou
toda a calça ao recolher o pinguelo para dentro da braguilha entreaberta.
Vendo-o inconsolavel e naquela situação infeliz, aconselhei-o a ir para casa se recompôr e
desculpar-se mais tarde junto à Julinha. Acompanhei-o até o carro e enquanto este partia,
dei o maior grito de vitória e voltei correndo para a festa, onde, agora
confiante pacas, sai logo dançando com uma das loirinhas na qual tinha botado o ôlho;
e daí para a frente foi uma farra só noite adentro.
por Salo Yakir - Janeiro, 2014.
guapo cavalheiro©