Foi em um destes dias que me ocupei em matutar sobre a redação de uma cronica
curta  e tanto quanto possivel espelhando certos aspectos do cotidiano.
Passaram-se pela minha cabeça varios temas e situações.
Aquele que se propõe a redigir o que quer que seja, defronta-se de imediato com as
limitações de ordem intelectual e dominio de cultura geral, incluindo historia, politica,
religião, sociologia, psicologia e outras "gias" mais. Saem-se melhor os que
herdaram de sua estirpe a inteligencia, perspicacia, visão vivencial abrangente e
poder de pesquisa no sentido vasto da palavra. Acho até que devem ter muitas
outras qualidades que os tornam escritores excepcionais.
O que nos leva a arriscar a dignidade, orgulho e reputação quando nos propomos a
passar para o papel a verve que acreditamos possuir? Nem vou me ufanar da
capacidade de enveredar por um tema tão complexo, que desafia o conhecimento
do homem há seculos. Com o surgimento da Internet em meados de 2014, nunca
houve tanta proliferação literaria, com a criação e publicação de livros, artigos,
cronicas e contos, desde os mais medriocres até os de nivel elevado.
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- Bom dia! Fui falando quase que automaticamente pro meu vizinho, que fazia
o maior barulho enquanto aparava a grama do jardim. "Bom dia coisa nenhuma",
logo pensei. Não merecia que me dirigisse a ele com a submissão que nos
acostumamos. Queremos ser simpaticos e comunicativos e é nisto que dá. O cara
vivia infestando o ar com o cigarro na boca, respondia com monossilabos pois
não sabia cumprimentar, alem de permitir que o pastor alemão entrasse no nosso
jardim e fizesse o diabo. Quando saia deixava o cachorrão dentro de casa,
que ficava latindo durante horas. Alem disto, vivia reclamando de coisas
ridiculas, que tão bem caracterizam a convivencia de pessoas nem sempre
tolerantes e apartadas por uma simples cêrca limitrofe. Alias, ao me deparar
com o troglodita ao lado, crescia a sensacao de que sempre havia uma
cêrca à nossa volta, quer fisica, quer psicologica e social, nos isolando de varias
categorias de pessoas, que impedia a concretização de muitos dos nossos
objetivos basicos. Não era sem razão que muita gente vivia frustrada e
arisca contra as vicissitudes e limitações da vida moderna e, no processo, não
faltava também o registro quase que diario de tragedias que passavam
desapercebidas do grande publico.

O carro do vizinho estava novamente mal estacionado e aquilo me
enfesou de vez. Decidi, neste dia que havia se iniciado todo bagunçado - que
experimentamos vez ou outra -, eu iria me concentrar em todas aquelas atitudes
insuportaveis que espezinham a nossa paciencia. Para isto, iria me esforçar por
permanecer atento o quanto possivel aos acontecimentos à minha volta.

O primeiro incidente aconteceu com um fuinha metido a formula 1 que me deu
uma insolente cortada na marginal. Quando o transito estancou e emparelhei-me
com o bacana, não me contive em lhe desfechar uma saraivada de
improperios ao meio dos altos decibeis que vinham do seu Chevy. Como
esperava, recebi de volta um sonoro xinguamento, acompanhado de
varios gestos obcenos. E as buzinas ao redor nos ensurdecendo sem dó?
Aqueles motoristas nervozinhos não conseguiam entender que a buzina
tinha sido criada para alertar e salvar pessoas e não para enloquecer o que
ja se tornou louco!  Transito pesado, o incansavel monstro solto pelas ruas
da vida moderna para nos desafiar logo pela manhã e o pior, que todo santo dia.

Quando finalmente cheguei ao escritorio, por sorte a minha vaga no
estacionamento estava livre, mas a do meu colega paraplegico estava
ocupada por uma  caminhoneta velha e desconhecida pertencente a
alguem sadio de corpo e doente da cabeça. Não há mais respeito por ninguem
nesta terra!
Peguei a minha papelada e fui me dirigindo ao hall dos elevadores, que
àquela hora da manhã ja reunia um bom numero de pessoas.
Plantei-me atras de um grupinho de moças e, como todos, fiquei concentrado no
painel luminoso indicativo da posição dos andares. A maioria das pessoas que
chegavam, observei, se dirigia de imediato ao painel e apertava o botão de subida
do aparelho, como que obedecendo a uma ordem robotizada. Por certo, deviam
estar imaginando que toda aquela gente no saguão era um bando de
mentecaptos que havia sido conduzido para o local para apreciar a subida e descida
dos ascensores. Ou, pensavam, ninguem dos presentes havia ainda pressionado os
botões e estavam ali esperando por eles para resolver
a situação... Mas que nada, raciocinei por fim. Todos estes retardatarios que
apertavam o botão um atras do outro, o faziam como uma manobra para se
posicionarem ao lado da porta do elevador e serem os primeiros a entrar
(mas em contrapartida os ultimos a sair... a conhecida extrapolação FIFO/FILO -
"first in first out/first in last out").

Dentro do ascensor ninguem se arriscava a falar no celular, pois, além da
falta de recepção, ficariam expostos à curiosidade geral e o jeito era ficar
olhando pro teto, mirando de soslaio o traseiro de alguma garota atraente ou
distanciando-se o quanto possivel de algum contato fisico com o
desconhecido ao lado. (Acho mesmo que todos os lugares publicos de
tamanho limitado deveriam ser construidos no sistema de compartimentos.
O cara entra no elevador e ocupa um dos cubiculos entre os reservados para 9
ocupantes fisicamente separados entre si, a exemplo da fileira de cabines
telefonicas de um aeroporto). A proposito, em elevadores as pessoas
impacientes são tambem as mais insuportaveis. Basta o cubiculo movel
chegar ao andar terreo e abrir as portas para irem entrando, na base de golpes
de ombro e cotoveladas contra a corrente dos passageiros desembarcando.
Gente fina. Alias o mesmo ocorre nas plataformas do metrô, ninguem tem
tempo e paciencia menos ainda, salve-se quem puder, a cortezia foi pro brejo.

Elegancia e comportamento ficam reservados para os colarinhos brancos que em
geral andam de taxi  - será mesmo? Existe a maior briga em ser o primeiro
a agarrar a maçaneta do carro... e em dia de chuva então... pode até virar duelo de
guarda-chuva e altercação feia. O mais ironico é que acaba pegando o taxi alguma
senhora de idade ou garota boazuda, o que neutraliza qualquer reação dos
atônitos brigões.

Nas filas que se formam em super-mercados, bancos ou outras caixas e
bilheterias, o que conta é o "jeitinho" do bacana, que vai se infiltrando e com
a maior cara de pau pede pra um "conhecido" fazer uma compra também para ele.
Outro desafio à paciencia é conseguir passar direto com as compras por uma das
caixeiras em supermercados. Não raro a fila fica paralizada e quase sempre por
culpa de algum comprador que discorda com o debito de certo produto,
demora para preencher cheques ou insiste na verificação do cartão
de credito rejeitado.  

E em salas de espera ou no ônibus, já sentiram a barra? Homem quando senta
escolhe sempre ficar ao lado de uma mulher atraente ou em frente de alguma
moça de pernas cruzadas. A cabeça da maioria dos homens é libidinosa antes
de ser intelectual e isto é valido para todas as situações que se criam em lugares
publicos. "Mente suja", diriam alguns incapacitados de levar à frente uma manobra
absolutamente natural de paquera. Os subterfugios para abordar uma garota são
como lances de mestre num tabuleiro de xadrês. As vezes da empate, mas muitas
vezes são as brancas que vencem, representadas pelo garanhão, pois tem a
vantagem do lance inicial. Além disto conhece bem o jogo do amor e sabe que a  
rainha está ali para ser conquistada ante qualquer sacrificio...  
No compêndio das abordagens famosas, uma das classicas é a abertura do
"esbarrão delicado", que envolve um leve movimento de ombro-a-ombro e a
"caida acidental" de uma caixinha contendo alguma bijuteria colorida.
"Oi, desculpe, tem aqui esta caixinha, você gostaria de abri-la para ganhar uma
surpresa?". A técnica da abordagem está diretamente ligada ao fator
"imaginação-momento critico-surpresa" e o malandro deve estar preparado
para qualquer tipo de reação (incluindo uma bofetada). Sempre vale a pena tentar,
pois de dez tentativas, a media de sucesso é de uns 30%.

O email, chats, mensageiros e redes sociais estão ai para o bem e para o mal.
Nos dias atuais já com uma notada vantagem para este ultimo. Que tem crimes
de sedução de meninas adolescentes, todos sabemos. É um desafio hercúleo
para os pais destas garotas avidas em "compartilhar seus recem despertados
hormônios" com algum bacaninha cheio da labia. E muitas caem facil na armadilha.
Mas o que mais caracteriza o lado sombrio deste incrivel instrumento de
comunicação abrangente, são os frustrados cinquentões e até homens mais
velhos, que se fazem passar por jovens bonitões para virar a cabeça das
jovenzinhas inocentes. Enquanto fica só no papo furado, menos mal...

Entre todos os respaldos psico-sociais de que se valem as pessoas no dia a dia,
sobressai, de longe, o cigarro e certos entorpecentes, seguidos da cerveja e outras
bebidas alcoolicas. O uso do cigarro sempre aparece na vida de todo adolescente
em sua fase de auto afirmação, apoiado pela avidez em ganhar pose de machão
frente às garotas. O objetivo maior não é o de inflar os pulmões com aquela
fumaça perniciosa. O moleque não mede as consequencias, pois é bacaninha,
pelugem nas buchechas, celular numa das mangas dobradas da camisa e o maço
de cigarros na outra, senta-se de preferencia no para-lama do carro e espalha aos
quatro cantos os vapores de seus devaneios e insolencia juvenis. E para uma
maioria, este respaldo continua prevalecendo vida afora, muito menos pelo
vicio mas mais como reflexo automatico de abstração
em situações de premencia social.

Celular, então, quase que não tem rival no campo das discrepancias e
mecanicalidades das pessoas em circunstancias as mais intigrantes. Antes de tudo,
basta citar o danoso dominio que esta sofisticada caixinha eletronica exerce sobre a
mente da população estudantil de todos os niveis. Aquele que era o soberano quase
que absoluto sobre os mais aguçados interesses dos jovens e adolescentes, ou
seja, o computador, foi deposto numa das mais cruciais revoluções tecnologicas dos
tempos modernos.O smartfone executa quase tudo que o PC e' capaz e muito mais,
quando se fala em termos de qualidade e quantidade dos aplicativos
disponiveis.Queiramos ou nao, a tecnologia celular ja nos colocou na auto-estrada
de dominio do "Big Brother", pois a sindrome da comunicação POL (Permanent On
Line) e' irreversivel e destinada no futuro proximo a transformar de forma
profunda o controle do Estado sobre as atividades do cidadão.

A multi bilionaria industria de roupas, perfumes, cosmeticos,  cirurgia plastica,
regimes de emagrecimento, tratamentos de beleza, multivitaminas e pilulas de
rejuvenescimento proporcionam à vaidade feminina um numero quase ilimitado de
recursos para ganhar a admiração dos homens e a inveja das companheiras.
Mantendo-se bem cuidada, elegante e sexy a mulher está ativando a sua vocação
nata de cobiçada e disputada pelo sexo oposto. Reflete-se pela perspicacia
presente nos cromosomas femininos em destacar-se entre as rivais para ganhar a
admiração do parceiro selecionado. A sua saga em  procriar, gozar do instinto
maternal e manter um sólido casamento é essencial. Além disto, esforça-se por
estabelecer tanto quanto possivel uma rede matriarcal em tempos de
autodeterminação feminina perante o implacavel mundo profissional chauvinista.
A porcentagem de sucesso está em favor da mulher, não só por pertencer ao
sexo predominante, mas pela perseverança em usar de seus encantos,
sagacidade e aplicação academica para vencer os reveses do dia a dia.
pppp
por Salo Yakir -  julho, 2015  ©
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