A moça no ponto do ônibus varria o horizonte com os
cilios empinados a procura do aerobus, que estava
prestes a chegar. Nisto, passou sobre a sua cabeça um
ciclista de capacete côr de abacate que lhe acenou
alegremente, o qual reconheceu como sendo o florista
do Largo do Arouche. O poste, intrigado, debrucou-se
em direção da moça, querendo saber o porque de sua
inquietacao. Nisto, surgiu em disparada um grupo de
ciclistas pigmeus, equilibrando-se precariamente em
cima de um dos cabos leiser. O poste ajudou-os a
levitar e endireitou-se para poder observar se o aéreo
despontava da boca do tunel.
O grande veículo enfim chegou e estabilizou-se no ar
ao lado do poste, sorridente. Saudou a todos com
varios guinchados e chuva de faíscas, enquanto
baixava a plataforma de embarque dos passageiros.
Dentro, todas as poltronas de isopor estavam
cobertas por pinturas de flôres e a moça escolheu
uma na fileira central, adornada por dalias
púrpuras. A viagem prosseguia rápida e,
inesperadamente, ajudado pelo ar quente exterior,
pulou flutuando para dentro do coletivo um mancebo
loiro, trajado de jaqueta de palha e calças de veludo
faiscante. Deparando-se com a moça, os seus olhos
negros se transformaram de imediato em azuis,
devido à intensa luz irradiada pelo semblante
holográfico-angelical da rapariga.
A certa hora, o motorista ficou ofuscado com os raios
que refletiam em sua cabine e teve de estacionar no
tôpo de uma antena para investigar. Disso se
aproveitou o mancebo loiro para sair pela janela e
colher uma corôa de margaridas do campo de um dos
canteiros nebulosos proximos. Ao voltar, gentilmente
depositou as flôres na fronte da garota boquiaberta.
Mutuamente atraidos, se beijaram com ardor.
Um dos passageiros, que era duende e amigo de
padre, deu a benção e casou-os no teto do veiculo
aéreo, sob uma tenda de flocos de nuvens. Serviram
como padrinhos o motorista e uma passageira de
cabelos verdes e, como testemunhas, um bando de
andorinhas chilreantes que sobrevoavam o local em
vôo razante. Os ciclistas, que souberam do enlace,
apareceram em bloco rebocando o poste e, após a
festança - e com o cantar do galo -, sambaram os
noivos ao Castelo Estrelar. Consumada a noite de
nupcias, passaram todos a viver tossindo e
expectorando, mas quase felizes para sempre...
A MOÇA DO ÔNIBUS AÉREO ©