Aos queridos familiares:

Finalmente foram completados os nomes de todos os membros das Familias
Smaletz-Vaidergoren-Boieras-Iacher e seus descendentes de primeira à quarta geração.   
Gostaria de agradecer a todos que me ajudaram na montagem desta Arvore Genealógica
(linear), um trabalho modesto mas ao mesmo tempo um documento que pode ser
considerado de importancia fundamental para a posteridade. A bem da verdade, este
trabalho se deve à iniciativa conjunta com a Naomi Boieras, que conseguiu relacionar um
numero significativo dos membros da familia e merece todo o meu aprêco, ainda que a
ideia inicial de construir um site da familia na internet não tenha ainda se concretizado.
Notem que foram também acrescentados os nomes dos familiares da Africa do Sul, o que se
tornou possivel devido a gentil colaboração da Sula Glaser (Sulinha).
Recebi varias sugestões para alargar a crônica que escrevi e pretendo inclui-las tão logo
tenha reunido diversos dados históricos que espero me sejam fornecidos pelos diversos
primos. Assim, os primos que desejarem escrever um relato de fatos significativos da
infância e adolescencia, sintam-se a vontade em fazê-lo, pois este texto se refere apenas à
algumas recordações de ordem geral, o que o torna muito limitado. Eu certamente ficaria
muito feliz em incluir a colaboração de todos nesta crônica. Isso transformaria o trabalho
de modesto numa peça de extremo valor e, se todos derem algumas horas de seu tempo, o
resultado final poderia ser a elaboração de um livro familiar, projeto perfeitamente
exequível.  O tratamento editorial, redação e revisão final deste livro eu o faria com o
máximo prazer, não sem antes submetê-lo a aprovação de todos e a inclusão dos
colaboradores no respectivo trabalho.
Abração e saudades!
Salo  --- Israel, fevereiro 2006.


NOTAS DE FALECIMENTO

Desde Novembro de 2007, os onze primos passaram a ser dez. Infelizmente, deixou-nos o
mais jovem, Ben-Sion (Benque) Smaletz, aos 65 anos de idade. Morava em Natania e
mantinha em Tel Aviv a sua agência de turismo, a "BenziBrasil", largamente popular entre
os brasileiros radicados em Israel. Há alguns anos que sofria de problemas cardiacos e
diabete. O seu falecimento deixou uma enorme lacuna na familia, onde era profundamente
estimado e respeitado pela sua seriedade profissional. Era portador de raro senso de humor
e mantinha estreito relacionamento com todos os familiares, quer em Israel, quer no
exterior, que visitava regularmente. Era casado com Raquel, tiveram dois filhos, Dov,
prematuramente falecido e Roseli, casada, e tres netos.
Alav ha-shalom - Ihie' Zichro Baruch

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Em setembro de 2013, aos 83 anos de idade, faleceu a nossa querida Cila Feher, cujo
carisma, bondade e dedicação humanitaria marcou, de uma forma ou de outra, os valores
morais com os quais cresceram à sua volta a maioria dos primos, especialmente os nascidos
desde fins dos anos trinta. Sua memória sera' guardada com imenso
reconhecimento e carinho. Foi casada com o emérito cardiologista Josef Feher, falecido, e
teve quatro filhos, Ricardo, Vera, as gêmeas Lilian e Vivian e diversos netos.
Alav ha-shalom - Ihie' Zichra Baruch

ooOoo

Deixou-nos o nosso querido Flávio Boieras, cujo falecimento deu-se no dia 15 de fevereiro
de 2015 em Israel. O sepultamento teve lugar em 16 de fevereiro no cemitério comunitário
do kibutz Bror-Chail. No dia 7 de março estaria completando73 anos de idade.
Se é que existe uma divisão de categorias entre os espíritos que habitam alguma camada
exotérica desconhecida pelo homem, o saudoso Flavinho certamente terá sido incluído
entre as mais elevadas. Foi filho, irmão, primo, marido, pai, avô, companheiro e amigo dos
mais justos, inteligentes e leais, inarredavel defensor de seus e dos princípios de bem e
justiça em prol do semelhante. Por estes e outros motivos que a sua modéstia ocultava, foi
admirado e amado por todos que o cercavam.
Porém, acima de tudo, foi um homem de boníssima índole e dedicação à familia, advogado
e administrador de empresas, empreendedor e industrial admirado pelos seus subordinados,
fervoroso colaborador da coletividade judaica de Recife e devotado israelita que logrou
realizar o seu sonho sionista, reunindo-se aos seus filhos e netos em Israel.
Alav ha-shalom - Ihie' Zichro Baruch

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ONZE PRIMOS E UMA VILA ©
Por Salo Yakir - Dezembro, 2005 (+ atualizações periódicas)


> Domingo era "o" dia pelo qual todos os primos esperavam com ansiedade. Como os
católicos da Vila Clementino, que naquele dia se dirigiam regularmente à Igreja da Saude
na Rua Domingos de Moraes, semelhante obsessão prendia aqueles meninos e meninas ao
se reunirem sempre que possivel na vila no. 89 da rua do Tanque. Não frequentavam a
igreja, pois professavam a fé judaica. Estas crianças frequentavam cada qual a sinagoga de
seu bairro, em companhia de seus pais, principalmente nas Grandes Festas de Rosh
Hashana e Yom Kipur. Também Simchat Tora e Chanuka ofereciam celebrações
interessantes que atraiam a juventude, quando se desfilava com os Sifrei Tora e
bandeirinhas acompanhadas de guloseimas e se ganhava "dinheiro de Chanuka" e as
crianças eram convidadas a acender cada dia uma das 8 velas da Chanukia. Em Sucot era
a ocasião de construir-se a "Suca" e sacudir o "lulav". Pitoresco era também o
"kapoiress",  cerimônia simbólica realizada na véspera do Yom Kipur, que consistia em
girar um galo ou uma galinha vivos acima da cabeça dos supersticiosos, enquanto se
pronunciava uma oração especial para passar ao galináceo todos os azares e coisas
indesejaveis que pudessem atingir as pessoas no ano subsequente. As cenas que se seguiam
eram tão hilariantes, que faziam com que as crianças rolassem no chão de tanta farra...
Porém, os personagens desta crônica possuem uma história digna de ser contada,  cuja
narrativa caberia a cada um apresentar separadamente na redação de um livro conjunto.
Este livro, ainda imaginario, iria sem duvida relatar muitas façanhas e curiosidades de
cada um dos onze primos, todos filhos de imigrantes israelitas vindos ao Brasil entre os
anos 1920 e meados dos anos 30, entre eles
Salomão e Freida Smaletz e seus cinco filhos,
Bernardo, Clara, Carlos, Anna e Sara
. Os mais velhos dos primos encontravam-se
espalhados por diversos bairros da cidade, como  Cyla Vaidergoren, residente numa zona
então aristocrática, o Jardim America, e as irmãs Cecilia e Miriam Smaletz, que moravam
no bairro da Bela Vista (Bexiga), considerado então setor predominantemente popular,
habitado em sua maioria por imigrantes italianos. O grupo de primos ainda compreendia os
irmãos Boieras: Sulamita, Flavio e Joel, residentes na vila,  os irmãos Smaletz, Marcos e
Ben-Sion, residentes na Dom Bosco, uma pequena rua em frente ao Jardim da Luz no Bom
Retiro; Sarah Vaidergoren, irmã de Cyla, residente na Rua Oscar Freire;  Sula Smaletz,
irmã de Cecilia e Miriam, moradoras na Rua Conselheiro Ramalho e por fim Salomão
Iacher, filho único,  morador na vila no. 89.

No início dos anos quarenta, o bairro de Vila Clementino passava por seu estágio inicial de
crescimento. As ruas, de terra batida, se transformavam  nos meses chuvosos de inverno em
lamaçais quase que intransponiveis, inundações eram comuns e naquele quarteirão entre as
ruas Coronel Lisboa e Marselhesa as poucas casas que despontavam dos dois lados da rua
se ocultavam entre os matagais que invadiam os terrenos baldios adjacentes. Uma das
primeiras casas construidas fôra um palacete pertencente `a familia Maluf, sírios
proprietarios de cortumes; uma estreita vila contendo três casas modestas flanqueadas por
duas casas maiores, e ao lado de uma delas, no sentido norte, outras três edificações em
estilo colonial, todas pertencentes `a familia Sancowsky, ricos comerciantes israelitas
provenientes da Bessarabia. Numa destas casas morava a familia Scharf e num pequeno
sobrado, distante 50 metros da vila, residia a familia Chapaval. Nos anos 1940, na casa
no.1 da vila no.89 moravam Ezequiel e Clara Iacher, na casa central os idosos Chaimowicz
e na de no.3 o casal Mendelis e Sara Boieras. A mãe idosa de Clara e Sara, Freida Smaletz,
viúva, morava num quarto separado na entrada
da vila e em frente desta a familia de Bernardo e Fany Vaidergoren e as suas filhas Shirley,
Lea e Ety.

Quatro horas da tarde dos domingos era o horário aproximado no qual despontava na
entrada da vila o Chevrolet azul, modelo 1939, dirigido pelo tio Samuel, acompanhado da
familia. A criançada, ouvindo o ronco do motor, saia correndo aos gritos, cercando o carro
em demostrações de grande entusiasmo.. O tio Samuel, com o seu simpático sorriso e ar
generoso, sabia o que lhe esperava. Dai a algum tempo ele estaria levando a gurizada para
um passeio, o que já havia se transformado numa atração permanente. Quanto ao tio
Bernardo, este se deslocava com a familia no bonde no. 47, que cobria o trajeto Bom
Retiro-Vila Mariana e ao chegar na vila, era igualmente abordado por todas as crianças, às
quais distribuia caramelos e balas que retirava do bôlso de seu paletó. E a tia Clara a todos
recebia com muita atenção e amôr, com farta mesa de "kichelech"(biscoitos caseiros),
"bulkalech" (pão-doce), "latkes" (bolinhos de batata) e outros quitutes da cozinha idish.
E mais tarde, dependendo do estado espiritual das crianças, iam todos se reunir na sala de
visitas da casa do tio Mendel, para ouvir os primos Salomão e Sula apresentar um recital de
musicas para principiantes ao violino e piano, respectivamente. Anos mais tarde, já
adolescentes, os primos Flavio, Marcos, Juca, Ben-Sion e Salomão iriam reunir-se no
quarto deste último, para realizar as primeiras incursões no espectro das musicais
folclóricas israelenses, o que culminaria nos anos sessenta com a formação do conjunto
"Chinani", sob a supervisão geral do primo Marcos.
Muitos outros episódios inesqueciveis da infância iriamos todos carregar para o resto da
vida, cabendo especial destaque aos memoraveis "sedarim" de Pessach, que eram
realizados ao meio de grandes preparativos e comemorados nos minimos detalhes. O
dirigente do seider era tradicionalmente o tio Bernardo, a figura predominante da família,
intelectual, lider sionista e dono de vasto cabedal judaico. Junto com ele, se acomodavam os
demais chefes de família nos lugares almofadados, oficiando o ceremonial em posição
recostada, segundo as normas tradicionais do Pessach. A variedade de pratos tradicionais
servidos eram de tal fartura, que poderiam facilmente alimentar muito alem dos trinta ou
mais participantes durante as duas noites comemorativas. O vinho doce e rubro que rolava
pelos cálices a cada benção da "Hagada", era de fabricação caseira do tio Bernardo o
mesmo ocorrendo com o prato
de abertura, o insuperável "guefilte fish" da tia Ester.  Servidos eram também os
"kneidalech" da tia Sara, o "lokshn kuguel" da tia Clara, o "fluden" da tia Anna e as
"matzot" crocantes do tio Ezequiel (Chazkel).  O ponto alto da ocasião era a leitura das
"Fir Kashes" por uma das crianças e mais tarde a escapada de todas elas à procura do
"Afikoman", ao meio de grande alvorôço. Enquanto a maioria dos participantes se
encontrava prostrada digerindo a  lauta refeição, os mais decididos ainda encontravam
muita motivação para concluir a leitura da "Hagada" ao meio das lindas melodias do texto,
culminando com o "Chad Gadia'".

Para os garotos, por outro lado, a cerimônia da "Bar-Mitzva" iria ficar gravada para
sempre em suas vidas, desde que esta era comemorada em grande estilo, tanto com a leitura
do trecho semanal (passuk) da  "Tora' ", um discurso aos convidados e uma festa das mais
alegres.

Outro fato importante fôra a permanência dos irmãos Bernardo e Clara na então Palestina,
nos anos 1920, ainda sob contrôle do Imperio Britânico, para onde convergiram por
ideologia sionista, trabalhando como operários na construção de estradas. Mais tarde, em
1929, decidiram juntar-se à familia já radicada no Brasil.


A Estrutura da Familia:

Miriam e Cecilia Smaletz, (Carlos e Rosa) ambas pianistas, emigraram para a Africa do
Sul em 1950 e lá construiram suas familias,  indo morar em Pretoria e Johannesburg.
Foram seguidas pouco tempo depois pelos seus pais e pela irmã menor, Sula, passando
todos a morar na cidade de Capetown. Sula viria a tornar-se Secretaria da Embaixada do
Brasil em Pretória, evoluindo depois de alguns anos para o cargo de Consul local e Consul
em Gana(2004).
Miriam [24/2/1928] casou-se em 1952 com Solly Shapiro [2001]
Filhos:
Raymond [02/03/1953], advogado, casado com Rennette Dafkin tem uma filha,
Eloise[27/7/1988];
Annette[23/3/1955], estilista de TV, casada com Roy Stoler, advogado,
tem os filhos Darren[31/5/1980], medico; Ryan [12/12/1983], economista,  
Errol
(23/11/1962-01/03/83).
Cecilia[21/8/1931], casou-se em 1952 com Issac Chait(1984). Filhos:
Cyndi[16/2/1956],
artista e escritora, casada em segundas nupcias com Michael Freiman, medico, tem os
filhos Jason Kaplan[17/2/1975], medico e Nikki Kaplan[12/10/1976], sociologa;
Howard[25/5/1954], medico, casado com Michelle Milunsky, tem os filhos:
Justin[28/12/1982], economista e Donna[19/2/1985],estudante.
Gregory[06/3/1959], empresário, divorciado, tem um filho, Daniel[31/8/92]
Sula[18/11/1938], diplomata, casou-se em 1963 com Alec Glaser( ), auditor.

Cyla Vaidergoren, falecida, (Samuel e Anna) formada em enfermagem, casou-se com o
medico cardiologista Josef Feher, falecido.
Filhos:
Ricardo, divorciado de Chisi, tem dois filhos: Rafael e Fernanda; e Eduardo, do
segundo casamento com Patricia.
Vera , casada com Lauro Brand, tem dois filhos: Patricia
e Ariel;
Lilian, casada com Joe Kzouz , tem os filhos Daniela e Marcos;
Vivian , casada com Marcelo Radomysler, tem os filhos Gabriel e David.

A irmã de Cyla, Sarah, Agente de Viagens, divorciada de Jayme Szachnowicz, (Julio e
Berta) Industrial. Filhos: [idade das crianças na data de novembro/2009]
Roberto, casado com Claudia Diamant tem um filho, Beny;
Sergio,  casado com Carole tem duas filhas:  Beatriz 4 anos  e Luisa 3 meses
Cynthia  casada com Alexandre Carmo tem uma filha,  Maya de  6 meses,
Samy, divorciado de Samara Klug, casado com Sandra,  tem um filho: David, de 4 anos.

Marcos Smaletz, [7/11/1938](Bernardo e Ester), formado pelo Seminário de Professores em
Hebraico e em Linguas Orientais pela USP,  Agente de Turismo, casou-se com Miriam
Drabsky(falecida), Professora de Hebraico.
Filhos:
Dov, casado com Sofia Gaj, tem dois filhos: Rafael e Tatiana; Salo (solteiro),  Oren,
casado com Patricia Neufeld, tem três filhos: Nathan, Ilana e Lior; e
Raquel, casada com
Jairo Tcherniakowsky tem dois filhos: Beny e Liat.
O irmão de Marcos, Ben-Sion Smaletz [8/1942-11/2007], Advogado e Agente de Turismo,
casou-se com Raquel Jaimovitz, (Adolfo e Celina),  emigraram para Israel em 1971 e
tiveram os filhos
Dov (falecido) e  Roseli , divorciada, tem 3 filhos: Omer, Shachar e
Naama.

Sulamita Boieras, [14/6/1938](Mendel e Sara) Secretaria Executiva, casou-se com Nathan
Malzyner(falecido 10/2009)  (Julio e Frida). Filhos:
Betty, divorciada de  Fito Rojter, teve
os filhos Sandy e Andre', e
Daniel, casado com Vania, tem tres filhos: Carolina, Mariana e
Julio.
Flavio Boieras, [7/3/1942-15/2/2015] Advogado e Administrador de Empresas casou-se com
Lilian Weiss, (Aladar e Hilde), Secretaria Executiva. Filhos:
Sandra, casada com Mario
Hirsch [Leon e Teresa] e
Sergio, casado com Bianca Kestenbaum [Kurt e Iracema].
Tem quatro netas, Yasmin, Noa e Tal (por parte de Sandra) e Shiri (por parte de Sergio);
emigraram todos para Israel em épocas diferentes, a partir de 1982.
Joel Boieras, [4/10/1944] Administrador de Empresas, casou-se com Lia Sztulman, (Israel e
Matilde), Modelista. Filhos:
Jessica, Naomi e Gabriel, todos solteiros.

Salomão Iacher, [19/1/1939](Ezequiel e Clara) filho único, formou-se Analista de Sistemas
em Israel.  Casou- se com Sylvia Guerchfeld, [4/6/1946] (Moyses e Beila) advogada e
professora de Inglês. Emigraram para Israel em 1977.  Filhos:
Priscila, [3/09/1973] casada
com Chaim Aharonowitch [Moshe e Maly], tem três filhas, Yam [12/11/2004], Gaia
[30/7/2006] e Noga [16/08/2012].
Jakiel [3/3/1976] companheiro de Yossi Malka tem os
filhos gemeos adotados, Zohar e Hadar [16/9/2015] e
Dana [9/2/1983], casada com Itzhak
(Itzik) Ben-Zaken, tem dois filhos: Moshe, nascido em 11/4/2013 e David nascido em
24/6/14.

(*)
No decorrer do tempo, desde o nascimento dos primeiros primos durante os anos 1930,  
Miriam, Cecilia e Cyla, a familia se manteve sempre unida, apesar da dispersão geografica
que provou não interferir na harmonia entre os seus membros. Mas, pensando bem, e'
dificil acreditar que conseguimos sobrepujar todos os "perigos" daquela época! Quando
éramos pequenos, viajavamos no carro do tio Samuel sem cintos de segurança, sem ABS e
sem air-bag! Os vidros de remédios ou as garrafas de refrigerantes não tinham nenhum
tipo de tampinha de segurança... Nem data de validade... E tinham também aquelas
bolinhas de gude que vinham embaladas sem instrução de uso. A gente bebia água de
chuva, da torneira e nem conhecia água engarrafada! Que horror!
A gente andava de bicicleta sem usar nenhum tipo de proteção... se esborrachava e seguia
em frente...
Muitas tardes foram dispendidas com a construcao de papagaios que empinavamos
naqueles campos abertos que então existiam na vizinhança; nossos carrinhos de rolimã e os
peoes que faziamos rodopiar com destreza usando um simples cordao... Nao havia nenhum
brinquedo a pilha, era tudo movido manualmente, coisa que dotou muitos de nos de muita
habilidade e destreza em atividades profissionais anos depois.  A gente se jogava nas
ladeiras e esquecia que não tinha freios até que não dessemos de cara com a calçada ou
com uma arvore... E depois de muitos acidentes de perurso, aprendiamos a resolver o
problema... sozinhos! Nas férias, saiamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo;
nossos pais as vezes não tinham idéia onde estavamos, mas sabiam que não corriamos
perigo. Não existiam os celulares,  parece incrivel!
A gente procurava encrenca. Quantas contusoes, ossos quebrados e dentes moles dos
tombos! Ninguem gostava de denunciar ninguem... Eram so' "acidentes" de moleques: na
verdade não encontrávamos um culpado, com exceção de um certo Salomão...
Voces lembram destes incidentes: janelas quebradas, jardins destruidos, as bolas que caiam
no terreno do vizinho...??? Existiam as brigas e, as vezes, muitos pontos roxos... E mesmo
que nos machucassemos e, tantas vezes chorassemos, passava rápido; na maioria das vezes,
nem mesmo nossos pais vinham a descobrir... E ai tambem tinham as "turmas" que se
defrontavam e os primeiros flertes inocentes com as meninas. A gente comia muito doce,
pão com muita manteiga, as deliciosas pizzas e os biscoitos feitos em casa pela tias Clara e
Sara.  Mas ninguem era obeso, no maximo um pouco gordo... um gordinho saudavel...
Nem se falava em colesterol....
A gente dividia uma garrafa de suco, refrigerante ou até uma cerveja escondida, em três ou
quatro moleques, e ninguem morreu por causa de germes!  Colhiamos direto das arvores
suculentas amoras, goiabas, jaboticabas, figos e pessegos e faziamos também nossas
incursões na venda do italiano ou do português, onde surrupiavamos muitos picoles e
pés-de-moleque. Com os tostões que se economizava, compravamos alguns cigarros
"negritos" "picados" e iamos fumar escondido no matinho mais proximo; ninguem sabia
realmente fumar mas a sensação de desafio e sentir-se grande nos enchia de orgulho,
principalmente quando "fumando" sob a orientação da prima Cyla...
Não existia o Playstation, nem o PlayBox... Não havia TV, nem videocassete, nem
computador, Diskman, mp3, nem Internet ou maquina fotografica digital, tablet, etc.
Tinhamos  simplesmente amigos!  A gente andava de bicicleta ou a pé. Chocávamos o
bonde ou pegávamos carona em carroças puxadas a burro, tomávamos leite de cabra na
rua e jogavamos renhidas peladas correndo no meio do barro e se estatelando na lama, que  
satisfação ... Iamos para a casa dos amigos, tocavamos a campainha, entrávamos e
jogávamos aqueles lengendarios jogos como Banco Imobiliario, soldadinhos,  jogos com
pedras, feijões ou cartas e botões imitando jogadores de futebol... e pulo à distancia, jogo de
malhas, dominó, damas, xadrês ou ficavamos conversando... Sozinhos, num mundo frio e
cruel... Sem nenhum contrôle! Como sobrevivemos? Inventávamos. Pulavamos amarelinha
com as meninas, brincavamos de esconde-esconde  ou de queda-de-braço... Brincávamos
com pequenos monstros: lesmas, caramujos, e outros animaizinhos, mesmo se nossos pais
nos dissessem para não fazer isso! Os nossos estomagos nunca se encheram de bichos
estranhos! No máximo, tomavamos algum tipo de xarope contra vermes e outros monstros
destruidores... aquele do cara com um peixe nas costas... (um tal de óleo de ricino), o sal de
frutas "Eno" e uns carvãozinhos para a digestão...
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros, e tiveram que refazer a
segunda serie... Que horror!  Não se mudavam as notas e ninguem passava de ano, mesmo
não passando. A solução (ou não) era a segunda época, quando muitos
passavam as férias estudando. As professoras eram insuportaveis e não davam moleza... Os
maiores problemas na escola eram chegar atrasado, mastigar chicletes na classe, estar fora
do uniforme ou mandar bilhetinhos falando mal da professora, correr demais no recreio ou
matar aula só pra ficar jogando bola no campinho...
E as meninas? Tinham seu mundo encantado à parte, bonecas, casinhas, roupinhas e
jogos de cozinha em miniatura que não exerciam nenhuma atração sobre os moleques; a
gente se divertia em incita-las e puxar-lhes as transas ou, em raras ocasiões, aceitar pular
com elas "amarelinha", brincar de esconde-esconde ou convidá-las a visitar nossos
esconderijos secretos para brincar de "medico e paciente"...
As nossas iniciativas eram "nossas", mas as consequências também! Ninguém se escondia
atrás do outro... Os nossos pais eram sempre do lado da Lei quando  transgrediamos as
regras! Se nos comportavamos mal, nossos pais nos colocavam de castigo, nos davam boas
palmadas e, incrivelmente, nenhum deles foi preso
por abuso e violencia!  Sabiamos que quando os pais diziam "não", era "NAO". A gente
ganhava dinheiro e brinquedos em Chanuca que era junto com o Natal ou no aniversário,
não todas as vezes que iamos à mercearia (os supermercados ainda não haviam chegado ao
Brasil...). Nossos pais nos davam presentes por amôr, nunca
por pressão ou por culpa...
Por incrivel que pareça, nossas vidas não se arruinaram porque não ganhamos tudo o que
gostariamos, que queriamos... Esta geração produziu muitos profissionais liberais, artistas,
amantes do risco e ótimos "solucionadores" de problemas... Nos ultimos 50 anos, houve
uma desmedida explosão de inovações cientificas e tecnologicas que transformaram
drasticamente nossas perspectivas... Tinhamos liberdade, sucessos, algumas vezes
problemas e desilusões, mas tinhamos muita responsabilidade...
E não é que aprendemos a resolver tudo?  
E sobrevivemos... sozinhos !!!



                                                                                    
*) Alguns trechos limitados foram baseados em material anonimo extraido da Internet.