- Mas não é possível, ainda o encontrei no teatro há uma semana atrás.
-- É. Parece que foi acidente. Ele tinha ido pescar, foi mordido por uma
cobra, estava longe de um hospital e não resistiu.
- É de doer! O entêrro é hoje?
-- As quatro da tarde no cemitério da Lapa. Pena da mulher, eles tinham
cinco filhos; não vai ser mole.
- Não vai não, mas a Márcia é ainda jovem e muito gostosa. Vai logo casar
de novo.
-- Certo, a vida tem de seguir... Sabe, é muito apavorante este negócio de
morrer de uma hora para a outra. Você está lá na avenida, entra de repente
um caminhão de uma transversal e em questão de segundos te manda pro
outro mundo... Assim, sem aviso prévio, do nada, o cara não tem nem
tempo de sentir dôr, ou fica prêso entre as ferragens do carro, sofrendo,
tudo acaba em instantes, um monte de sangue misturado com os
destrôços da colisão espalhados pela avenida...
- É muito fatalista você. Faltam paradas cardiacas por ai? A gente embarca
quando chega a hora e é isso ai. Bai, bai. Mixou.
-- E esta arma legalizada que são os veiculos em geral; entregam a direção
pra uma enormidade de gente inepta, adolescentes de cabeça ôca,
carteiras compradas, sem falar dos motoristas drogados ou de cara cheia.
- Acidentes nas estradas têm em todo o mundo. Matam mais do que a
guerra na Siria.
-- E quem fica com o bagulho quando a pessoa se manda?  É a família,
com todo aquele luto preto, um monte de gente vindo aporrinhar e depois
uma porrada de despesas pra ficar pagando pelo crédito em cinco anos.
Gente fingindo pesar no entêrro, a maioria da familia sofrendo, enquanto
alguns nem se aproximam da cova, ficam olhando de longe encostados nas
árvores ou andando de um lado pro outro falando no celular. Entêrro
deveria ser coisa reservada só para a família, sem aquele festival
de carros e gentarada que nada tem a ver sentimentalmente com o falecido.
- Isto de despesas, pelo menos na Máfia italiana eles tem a tradição de
entregar um envelope gordo de dinheiro pra viúva, e quem organiza todos
os  servicos funebres e os gastos são os chefões, mesmo que tenha sido um
deles o assassino  do finado. Mostram isto muito bem em filmes do gênero.
- Tai, a Máfia pode ser bandida, ganhar rios de dinheiro na
sacanagem, matar sem dó, mas na hora do vamo vê eles tem um código
de solidariedade pra não deixar ninguém da familia nostra desamparado.
-- Pra eles é fácil, pois lidam com milhões e vivem em um circulo fechado.
O que não é mole é o cara ter um xilique de repente e se mandar, deixando
toda a familia e os amigos curiosos paca, querendo adivinhar
pra onde a alma do cara se mandou, se pra cima ou pra baixo.
- É, muito mal feito isto de não sabermos o que tem "do outro lado". Tem
ai uns papos de hospital sôbre gente que parou de respirar e teve parada
cardíaca, ai tomam uns choques no peito e o coração volta a bater. Depois
eles contam que estiveram lá num lugar todo esbranquiçado, de
ar muito limpo e com a sensação de paz absoluta.
-- Não sei não. Em todo o caso, veja você que em cada religião eles
praticam outra coisa com os mortos. Uns fazem cremação e guardam as
cinzas do finado, outros queimam o corpo numa pira, jogam cadáveres em
rios, espalham as cinzas no mar ou de cima de um morro, enquanto que os
enterrados são acompanhados por gente cantando e tocando instrumentos,
como os negros de New Orleans nos USA e várias seitas da India.
- Também as tribos de índios costumam dançar e entoar cânticos nos
sepultamentos.
-- Putz. E só de pensar que tem lá entre o Jihad dos muçulmanos a crença
de que se eles morrerem num ataque contra os infiéis, eles vão pro céu e
recebem cada um 70 virgens de compensação... Já pensou? Cada noite com
um hímen diferente para se defrontar? O malandro tem de chegar lá no céu
no maior preparo físico... Só de pensar, setenta virgenzinhas... E o pior é
que os bobalhões acreditam nesta história ridícula.
- Tanto acreditam que jovens terroristas vivem se oferecendo para praticar
atentados onde se explodem, certos de que estão indo pro paraíso.
-- E os coitados que se suicidam? Muitas vezes por causa de um amôr
rechaçado. Se fôr mulher, o amante afina e parte pra outra, pois já havia
dado mesmo o fora na dona. Mas se é o homem que se mata, ai
a mulher fica toda com a consciência arrasada e demora um tempão
pra se recuperar.
- Acho muito triste uma pessoa chegar neste estado de espírito a ponto de
se matar. Exige muita coragem, como também motivo de extrema
gravidade, como dividas pesadas, prisão perpétua, doença terminal,
traição do cônjuge, falecimento de um filho e outras coisas do gênero
ligadas a traumas psíquicos.
-- Suicidio pode-se manifestar de varias formas, não necessariamente de
maneira premeditada. Aqueles que o fazem com idéia fixa são os suicidas
clássicos, transtornados a ponto de passarem um borrão em suas
memórias;  até se alieniam do fato de que os verdadeiros sofredores serão
os membros da familia.
- Isso me leva a caracterizar o tipo de suicida indolente e compelido ao
uso de drogas pesadas. O cara está na verdade doente, tanto fisiológica
como mentalmente, é um dependente que percebe que o corpo exige mais e
mais entorpecentes para satisfazê-lo.
-- E é uma pessoa fraca, apesar de ser dona de inteligência suficiente para
compreender que está deliberadamente caminhando em direção do
abismo. A sua morte estúpida, como tem acontecido com vários cantores e
artistas famosos, equivale ao suicidio, mas um suicidio passivo; o objeto
fisico  causador da morte não é uma arma de fogo, espada de Samurai,
veneno, enforcamento, asfixia ou queda de uma torre ou edificio alto. No
caso, existe um triguer que vai provocar a tragédia, que poderia ter sido
neutralizado caso tivesse havido tempo e vontade férrea de fazê-lo.
-- Escuta, este assunto de morte não tem fim; uns dizem que não tem
mêdo de morrer, enquanto que outros morrem de mêdo de qualquer
doençinha que pegam; muitos hipocondríacos ficam sofrendo
durante toda a vida, imaginando como vai ser a hora de encontrar-se
frente a frente com o caveira da capa preta e sua foice.
- E o que dizer dos que se botam a quebrar pela vida afora, boêmios
varando noites na farra, uísque à beça, mulheres, viagens, badernas, nem
pensando em doenças e muito menos na morte, que dizem querer que
aconteça quando tiver de acontecer, contanto que os peguem no
meio de um bacanal ou no convés de um iate na Riviera Francesa.
-- Estes caras ou tem de ser gigôlos ou tem de fazer muita mutreta, pois
vida de notívago é pra milionário.
- Os plaibois, que não sabem o que é trabalho, dizem que é melhor
viver pouco e gozar a vida ao invés de se meter num escritório ou numa
fábrica pra dar duro como otário e ganhar uma miséria.
-- Como foi que este mundo ficou tão doido? Na África, Índia, Iraque,
Siria e outros países, morrem de fome milhares de refugiados e quem é que
sabe ou se interessa sôbre o que se passa por lá? Aparece por dois minutos
nos noticiarios da TV, pouca gente dá bola porque não é problema deles e
logo esquecem do assunto, pois sabem também que em seu próprio país
milhares não tem o que comer.
- Esta é uma situação calamitosa que organizações como as Nações
Unidas e entidades humanitárias europeias tentam resolver, mas são tantas
as vitimas, em particular crianças,  e tão poucos os voluntários para cuidar
delas, que o assunto se transforma em uma tragédia quase que
incontrolável. Haja visto o AIDS e a epidemia ebólica.
-- E aquela gente toda amontoada em cidades de barracos e na imundície,
trabalhando pouco e recebendo uma pensãozinha do govêrno, mas na
maior irresponsabilidade gerando uma filharada enorme e armando o
alçapão para a desgraça da própria familia .
- Sem esquecer, claro, os males que geram a pobreza, a violência, assaltos,
raptos, estupros e assassinatos.
-- A ignorância é o principal inimigo da prosperidade e da dignidade
humana.
- Bem, com esta frase você acaba de resumir toda esta filosofada de
esquina que a gente tá deixando cair aqui.
-- Mas não seremos nós nem outros 500 mil mais que irão resolver os
problemas do mundo. A natureza e os sistemas político-sociais foram
criados segundo a lei do mais forte, do mais inteligente, do mais astuto e
do mais bajulador; e que se danem os demais!
- Se quiser vir no entêrro, posso lhe dar uma carona. Mas vou avisando
desde já que eu sou daqueles que ficam encostados numa árvore
observando de longe. Não aguento toda aquela gente fajuta, a vasta
maioria hipócrita e de cara fechada de araque, com a intenção de serem
vistos e assim capitalizar a simpatia da familia enlutada. Enfim, estão ali
não para preencher uma formalidade social, mas para capitalizar atenções
no melhor estilo daqueles politicos insignificantes.
ELE SE FOI...
©
Por Salo Yakir - Setembro 2015