Elegia à Liberdade©

Apos ter entoado a elegia à liberdade no recente Seder de Pessach (ceia
especial da Páscoa Judaica), sinto-me como um albatroz sorvendo a
revigorante brisa celeste. O albatroz, como poderia bem atestar seu
companheiro alado, João Capello Gaivota, dispõe de uma autonomia de
vôo descomunal, graças à enorme envergadura de suas asas. Tanto, que a
maioria de sua rota é feita planando à grande altitude e com um mínimo
de esfôrço. Quantos anos, em media, sobreviveria este pássaro
desajeitado, que consome uma enormidade de sua energia
no processo de decolagem?
Em se tratando da águia, ai sim, as informações são das mais
interessantes. Esta enorme ave de rapina chega a alcançar os setenta
anos, aproximadamente, ou seja, o ciclo vital de um ser humano. Ao
longo de sua existencia, o homem não raro é submetido a todo tipo de
intervenções cirúrgicas e, nos últimos cinquenta anos, à pratica de
transplante de órgãos, procedimento comum nos dias de hoje. A águia,
por sua vez, ao chegar por volta dos quarenta anos, refugia-se em seu
abrigo entre as  reentrâncias dos elevados penhascos e passa por uma
incrível auto renovação: Destrói o bico, golpeando-o contra as pedras, o
mesmo fazendo com as suas garras e fica confinada em seu ninho por seis
meses, durante os quais ocorre o miraculoso processo regenerativo
daquelas partes do corpo. Durante essa hibernação, a águia também
troca as penas e apesar de enfraquecida, a ave está "rejuvenescida" para
prosseguir em seu curso por mais trinta anos. Incrível milagre de
sobrevivencia entre as muitas maravilhas da natureza.
E o homem? Por que não está ele também aparelhado com
um sistema orgânico semelhante ao da águia? Pode-se imaginar uma
situação em que o ser humano possa passar por um processo de
hibernação, durante o qual determinados órgãos de seu corpo, como os
rins, o pâncreas, os pulmões e o fígado dariam lugar ao crescimento de
novos órgãos, expelindo os antigos?  Barrabás; viveríamos num mundo
completamente diversificado, pois homem e mulher passariam a ter uma
vida ativa de ate' 130 e mesmo 150 anos, causando com isto uma série  de
implicações de imprevisiveis consequências.
Teríamos todos o privilégio virtual de "voar alto" e
percrustar os mares, as planícies, as florestas e as megalópolis, com o
mesmo senso e esperança de liberdade de um João Capello Gaivota, o
soberano dos ares.

[Salo Yakir, Dovrat, Nissan 5771]
VOLTAR